HISTÓRIA
Ubatuba pode ter dia para lembrar imigrantes japoneses presos na ilha Anchieta em 1946

Na quarta-feira, dia 24 de maio, foi realizada em Ubatuba uma reunião para discutir a instituição no calendário oficial do município de um dia em homenagem aos imigrantes japoneses no Brasil. A reunião ocorreu em uma sala da Câmara Municipal e começou por volta das dez e meia da manhã.

Estiveram presentes a senhora Kazuco Sakiara Miyasaka, seu marido Shiro Miyasaka e sua filha Melisa Miyasaka Sakamoto, além de dois membros da Associação Filhos da Ilha, Iara Ribeiro Dias e José Walther Cardoso, o vereador Osmar Dias de Souza (PSD) e o procurador jurídico da Câmara de Ubatuba, Isac Joaquim Mariano.

Na ocasião, Melisa Sakamoto entregou ao vereador um pedido por escrito sobre a instituição da data em Ubatuba. Na justificativa pela importância da proposição, Melisa cita a passagem de 172 imigrantes japoneses pelo presídio da Ilha Anchieta a partir de 1946. O vereador demonstrou interesse e disse que apresentaria um projeto de lei em breve.

A ideia surge um ano após a instituição do Dia aos imigrantes búlgaros e gagaúzos bassarabianos no calendário de Ubatuba, que lembra a morte de 151 pessoas na ilha Anchieta em 1926, apenas 20 anos antes da prisão dos japoneses. Como se pode perceber, a ilha foi um belo cenário para trágicas histórias, como essas dos imigrantes ou a rebelião dos presos em 1952.

Curiosamente, o presídio terminou de ser construído em 1908, ano que marca o início da imigração japonesa no Brasil. No ano que vem, em 2018, comemora-se 110 anos da chegada dos asiáticos às terras brasileiras.

Na edição do dia 12 de julho de 1947 do jornal Diário da Noite,  a legenda da foto diz que “os japoneses da Shindo Remmei são os mais ordeiros e uteis”. (Arquivo cedido por Mario Jun Okuhara)

 

Segundo o jornal Diário da Noite, de 12 de julho de 1947, haviam 400 pessoas na ilha naquela época. “Desses 370 detentos, 155 são japoneses que aqui se encontram por ordem do ministro da Justiça, ocupando três dos oito pavilhões”, publicou o jornal. (Arquivo cedido por Mario Jun Okuhara)

Apesar de haver alguns envolvidos em casos de assassinatos políticos dentro do contexto do conflito entre os chamados “vitoristas” e “derrotistas”, a maioria dos presos era inocente.

Para se entender o porquê da prisão desses inocentes é preciso enxergar o contexto político da época. Foi o que fez o pesquisador Mario Jun Okuhara, que lançou em 2012 o documentário “Yami no Ichinichi – O crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil”.

O documentário apresenta o contexto histórico tendo como ponto de partida as memórias do senhor Tokuichi Hidaka, preso na ilha em 1946 por envolvimento no assassinato do coronel Jinsaku Wakiyama, em crime atribuído à entidade Shindo Renmei (Liga dos Caminhos dos Súditos). No filme, Hidaka retorna à ilha Anchieta, em Ubatuba, e relembra o cotidiano da época da prisão caminhando pelas ruínas do presídio, em um relato rico e detalhado sobre esse fato histórico.

ENTREVISTA COM MARIO JUN OKUHARA

Nesta segunda-feira (29), entrevistamos o autor do documentário para saber mais sobre os presos na ilha Anchieta e o contexto político naquele tempo. Segundo Mario Jun Okuhara, na época do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1946) , da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e do período pós-guerra com o presidente militar Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) existe uma legislação de repressão ao imigrante.

O documentarista observa que por conta da “cultura da vergonha”, pouco se fala sobre a forma como o Estado brasileiro tratou os imigrantes japoneses (e outros).

Um exemplo é o Decreto-Lei nº 383, de abril de 1938, que veda a estrangeiros a atividade política no Brasil. No mês seguinte é instituído o Decreto-Lei nº 406, cujo artigo 2º estabelece que “o Governo Federal reserva-se o direito de limitar ou suspender, por motivos econômicos ou sociais, a entrada de indivíduos de determinadas raças ou origens, ouvido o Conselho de Imigração e Colonização”. A regulamentação deste decreto previa, ainda, que publicações de quaisquer livros, folhetos, revistas, jornais e boletins em língua estrangeira ficariam sujeitas a autorização e registro prévio no Ministério da Justiça.

Quando em 1942 o Brasil decide pelo rompimento diplomático e comercial com os países do Eixo (Japão, Alemanha e Itália) a vida dos imigrantes desses países se torna ainda mais difícil por aqui. Vargas institui o Decreto-Lei 4.166, estabelecendo que os prejuízos causados pelos países do Eixo ao Brasil seriam pagos pelos imigrantes. O governo taxava em até 30% os depósitos bancários de imigrantes alemães, japoneses e italianos.

No final da segunda guerra (1945), parte da colônia japonesa que estava no Brasil não acreditava na derrota do Japão, acreditando que as notícias que circulavam sobre a rendição do imperador do Japão fossem falsas. Isso gerou conflito entre os que acreditavam na vitória e os que admitiam a derrota do país. É nesse contexto conturbado que os japoneses chegam à ilha Anchieta.

Ruínas do presídio, 2017. (Foto: Renata Takahashi)

Para Mario, a prisão dos imigrantes japoneses na ilha Anchieta é um caso interessante porque faltam espaços de memória dessa época. “Esse caso emblemático da ilha Anchieta, ele não só desvela essas violações contra os direitos humanos desses japoneses naquele período do pós-guerra, mas ele resgata tudo aquilo que foi feito anteriormente. Existe uma linha contínua de violações que foram executadas, sem interrupção”, afirma Okuhara.

Além das ruínas do presídio, há na ilha um gerador da época dos imigrantes que era consertado por dois presos japoneses. A intenção é que este gerador seja exposto aos visitantes da ilha, que atualmente é uma Unidade de Conservação do governo do Estado que recebe turistas de diversos lugares.

(Arquivo cedido por Mario Jun Okuhara)

“A instituição do dia aos imigrantes japoneses em Ubatuba vai fortalecer a exposição desse gerador, fortalecer a memória e estimular as pessoas a continuar pesquisando, porque tem muita coisa ainda para ser escrita”, disse Okuhara.

A passagem dos japoneses pela ilha foi marcada por melhorias no funcionamento do presídio. “Eles se organizaram em habilidades. Lavrador era o que não faltava. Tinha alfaiate, dois ‘engenheiros mecânicos’ e uma série de profissões para compensar carências da penitenciária”, contou Mario. Sabe-se que eles pescavam, fizeram campeonato de sumô e conseguiram criar uma horta, diversificando a alimentação dos presos.

E o que aconteceu com esses imigrantes? De acordo com Okuhara, os que cometeram os atentados cumpriram a pena e o restante, que era inocente, conseguiu habeas corpus e retornou para casa.

COMISSÃO DA VERDADE

Em outubro de 2013, foi realizada a audiência pública sobre os “Casos de tortura e morte de imigrantes japoneses – 1946 e 1947” na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. O evento ocorreu após repercussão do documentário de Okuhara. “Me disseram que eu tinha uma denúncia de perseguição política e repressão e todas essas violências que uma ditadura causa e sugeriram procurar a Comissão da Verdade”, contou Mario.

A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” abordou o caso dos 172 japoneses detidos no Instituto Correcional Ilha Anchieta, com os testemunhos das violações contra Fusatoshi Yamauchi e Fukuo Ikeda. Segundo Mario, os relatos apresentados na audiência pública puderam constatar uma situação objetiva de atos de exceção praticados por agentes do Estado brasileiro contra cidadãos japoneses.

OUÇA A ENTREVISTA DO INFORMAR UBATUBA COM MARIO JUN OKUHARA: