COLUNA ILHAS LITERÁRIAS
Tiê (Bárbara Araujo)

Ilhas Literárias #01

Mapa do tesouro

Tiê é um texto delicadamente trançado com fios de sabedoria universal e cores da natureza ubatubana. Os livros artesanais das Edições Bárbaras não só resistem contra… como também superam os valores artificiais ditados pela indústria cultural. Nada mais potente para despertar nas crianças amor, cuidado e intimidade com a literatura.

A autora por ela mesma

Bárbara Araujo é mãe de duas meninas. Ser brincante, palhaça, atriz, dramaturga e educadora. Criou as edições bárbaras para publicar suas histórias e costurar cadernos para serem lidos, desenhados, rabiscados e escritos por ai…
Link para a página das Edições Bárbaras: https://www.facebook.com/edicoesbarbaras

 

Tiê

Foi então que ela abriu os olhos
E viu refletida suas asas
Eram muitas cores
Jamais imaginadas

Uma menina com asas enormes
Enormes e coloridas
E num susto gritou:
de onde vieram?

Pra começar
Vamo lá no comecinho
Como a menina peixe
Virou um passarinho

Era noite de lua cheia
Na banheira menina nascia
Nascida assim, na água
Mais pra peixe que pra passarinha.

Recebeu seu nome
No olho a olho
Ali na hora
Tiê.

A menina crescia
Correndo com cabelo solto
Subindo em árvore
E comendo de um tudo

De um tudo que via
De um tudo que encontrava
De um tudo que lhe davam
Ela se alimentava

Parecia que não precisava
Escolher o que comia
Era só abrir os olhos
E encontrava o que queria

E se alimentava de um tudo
Não era só de comida
De brincadeira e de risada
Alimentava sua alma

E a alma também crescia
Mais que o corpo
Mais que um tudo
A alma expandia

Foi então que o tombo chegou
E com ele o arranhão
O sangue e o choro
De não dar conta não

Da dor que Tiê chorou
Brotou uma flor doce
Flor doce e cheirosa
Dessas raras escondidas

Prolongando o gesto de dar
O choro de Tiê foi brotando
Arco-íris e magia
Risadas e acalantos

E quanto mais Tiê chorava
Mais e mais o mundo brotava
Ao seu redor tudo encantava
E ninguém via que ela secava

Começou a murchar lentamente
De gota em gota
E foi então que ela se viu
Seca

Seus olhos não brilhavam mais
Seu sorriso não sorria mais
Seu corpo parou de crescer
Sua alma pulsava pedindo um aconchego

Aprendeu ali que só dá, não dava
E se deitou para esperar
Começou a tomar banho de lua
Na tentativa de se curar

Pouco a pouco na natureza
Ao redor dos passarinhos
Ao som do canto do vento nas árvores
Sentia a terra no corpo

Tiê foi brotando e brotando
Agora em alegrias e tristezas
Cores fortes e amargas
Se abria e se fechava

Movimento da maré
Do ir e vir
E assim indo e vindo
Foi que ela sentiu

Dois pontos nas suas costas
Doíam e doíam
Até que um dia parou
Para romper a sua pele

Tiê gritou alto
Um grito agudo e doído
E no grito as asas nasceram
Enormes e coloridas

Cores vibrantes e cores sombrias
O azul, o vermelho e o amarelo
Na ciranda das misturas
Inventava cores de muitas outras temperaturas

Do borrão nasceu o gesto
Da terra, o voar
Da água, o pousar
E lá se foi Tiê

Explorar as possibilidades
De ser
Quem quer que fosse
Do sentir ao ser… Tiê.

*Foto: Roseane Moura