COLUNA FAUNA TAMOIA - GUILHERME FLUCKIGER
Rodovias e estradas assassinas

“As estradas são as sementes da destruição da floresta tropical”  Thomas Lovejoy.

Quando falo em rodovias e estradas assassinas não me refiro às centenas de mortes de pessoas por ano no Brasil devido à imprudência dos motoristas ou péssimas condições das pistas. Falo das mais de 400 MILHÕES de mortes por ano de animais silvestres, alguns ameaçadíssimos de extinção, em todas as rodovias e estradinhas brasileiras que cortam áreas de mata preservada ou em recuperação ou mesmo campos abertos. Já existem muitos artigos, reportagens e blogs que comentam sobre as mortes humanas e muitas medidas são tomadas constantemente (embora a maioria inútil enquanto não houver educação e cidadania) para evitar esse problema grave. Mas quase nada é feito quanto à perda de nossa biodiversidade nos asfaltos, essa questão é praticamente ignorada em todas as esferas da sociedade.

Por que a galinha atravessou a rua?

A resposta para essa velha piada é ‘para chegar do outro lado’. Essa também é a resposta séria para a nossa fauna silvestre. Eles geralmente precisam chegar do outro lado por muitos motivos. Para explicar esses motivos, antes temos que entender que cada animal tem sua preferência alimentar, uns preferindo determinados tipos de plantas, outros algumas frutas específicas, ou insetos ou néctar de algumas flores, etc. E todos também possuem preferência por diferentes tipos de ambientes, vivendo em matas mais preservadas como as primárias densas, ou de recuperação, de galeria, em riachos, em campo aberto, etc. Com a perda das áreas de mata para pastagens, agricultura e especulação imobiliária os animais ficam restritos a pequenas áreas que muitas vezes não possuem mais seu tipo de habitat ou recurso alimentar forçando-os a partir em busca de condições essenciais para sua sobrevivência. Logo, costumeiramente, precisam atravessar rodovias e estradas.

Algumas espécies como a onça pintada, por exemplo, requerem uma área de caça muito grande, chegando a 50km2, e o mesmo ocorre para outras espécies que precisam de áreas grandes para o forrageio (busca por alimento). São raríssimas as áreas grandes preservadas, logo os animais acabam englobando áreas urbanizadas e rodovias em sua área de busca e muitas vezes as estradas são implantadas dentro de áreas de ocorrência dessas espécies.

Além de busca por recursos e condições ideais também há a procura por parceiros para a reprodução, que muitas vezes estão do outro lado da rodovia. Mesmo que os animais não atravessem a rodovia e não morram atropelados, cruzando entre a população daquele resquício de mata do mesmo lado da estrada, há uma perda de fluxo gênico, ou seja, cada vez mais vão se cruzando entre parentes enfraquecendo essa população geneticamente sendo cada vez mais suscetível às doenças e ao fracasso reprodutivo.

E a própria perda de mais áreas para agricultura, pastos, expansão imobiliária ou queimadas descontroladas fazem com que os animais tenham que fugir para novas áreas, cada vez mais distantes e atravessando cada vez mais asfaltos.

Como fazer a galinha atravessar com segurança?

Algumas medidas tomadas para a preservação da vida humana também ajudam os outros animais. Mas muitas outras medidas devem ser tomadas além dessas, pois os animais não sabem o que é uma rodovia e para que servem os carros, muito menos que eles são rápidos e mortais.

O que nós podemos fazer como pessoas e como motoristas?

Respeite os animais e tenha compaixão. Lembre-se que todo ser vivo tem o direito de ir e vir como qualquer ser humano.

Siga as regras de trânsito, inclusive a sinalização, e nunca dirigir embriagado são os primeiros passos.

Quando estiver em uma estrada que passe por área de mata dirija mais atento e diminua a velocidade.

Evite dirigir durante a noite, é mais difícil de enxergar algum animal e é quando a maior parte deles está na ativa. Se o fizer, dobre a atenção e reduza a velocidade.

Registre os animais atropelados, informe aos órgãos ambientais e de trânsito e, se possível fotografe e envie ao sistema do aplicativo gratuito Urubu Mobile, que contabiliza e especifica os animais atropelados nas rodovias brasileiras.

Se o animal ainda estiver vivo contate a polícia ambiental ou órgão ambiental imediatamente.
Se for ajudar um animal na estrada, ajude-o a atravessar e não o faça voltar de onde veio, pois provavelmente ele irá tentar atravessar novamente.

Se não conseguir interromper a viagem para ajudar sinalize para os outros veículos diminuírem a velocidade.

Evite fontes de atração dos animais na beira de ruas e estradas em áreas com vegetação próxima, como lixeiras abertas e restos de alimentos lançados pela janela do carro.

Colabore com ONGs que sejam atuantes na questão de ecologia de estradas.

O que podemos cobrar das empresas que administram as rodovias e dos governantes?

Rodovias e duplicações devem contemplar em seus projetos medidas para prevenção do atropelamento de animais.

O traçado das rodovias deve evitar o máximo possível a supressão de vegetação e a fragmentação das matas.

Rodovias não devem cortar áreas preservadas e UCs. Sempre é possível desviar o traçado ou fazer túneis,
Cobre para que as administradoras tomem providências em relação às mortes nas rodovias sob sua competência.

E quais medidas devem ser adotadas pelos responsáveis pelas rodovias?

Preferência por túneis e estradas suspensas ao invés de nivelamento de terreno, cortes de morros e rodovias niveladas com a terra. Essas medidas evitam, além dos atropelamentos, a presença de grande quantidade de água nas estradas e a queda de barreiras, levando a menos gastos com manutenção das estradas, mais segurança a todos os usuários e menos prejuízo com interrupções temporárias no fluxo de veículos devido a acidentes e “catástrofes ambientais”.

Preferência do traçado da rodovia sempre por terras já devastadas, evitando assim a fragmentação de áreas preservadas.

Construção de passagens subterrâneas ou pontes aéreas para os animais.

Cercamento de determinadas áreas onde as medidas acima não forem possíveis.

Placas sinalizadoras e fiscalização constante com cobrança de multas, as quais podem ser revertidas para melhorias nas condições ambientais das áreas afetadas pela rodovia.

Placas educativas e campanhas para a redução de morte de animais nas estradas.

Criação e financiamento de Centros de triagem de animais silvestres (CETAS) para o atendimento da fauna impactada pelas estradas.

Monitoramento constante das estradas, ouvindo sempre a opinião de especialistas na adoção de medidas mitigadoras e na tomada de decisão.

Mas no final quem liga pra galinha?

Muitas dessas medidas são adotadas em outros países, onde a fauna costuma ser bem menos diversa.

Aqui no Brasil tudo é tão superfaturado e mal feito que não há disponibilização de verbas e nem vontade para adoção dessas medidas, embora sejam simples, em médio e longo prazo são muito mais vantajosas e rentáveis, e deveriam ser exigidas por condicionantes de órgãos ambientais licenciadores.

Além disso, infelizmente há pouco conhecimento e interesse da população na perda de nossa rica biodiversidade. Prefere-se chegar mais rápido a um lugar e perder menos tempo com esse tipo de ‘besteira’. O engraçado e triste, ao mesmo tempo, é que precisamos da galinha para sobreviver, todos nós, inclusive os que ignoram ou desprezam a sua existência, muitas vezes atropelando propositalmente alguns animais que os desagradam…