COLUNA FAUNA TAMOIA - GUILHERME FLUCKIGER
Qual praia você prefere? Com lixo ou com conchas?

O mais simples argumento baseado na coletividade, na cidadania e no bom senso bastaria para convencermos uma pessoa sensata a não pegar conchas na praia: ‘você acha que os outros não merecem apreciar a beleza das diferentes conchas na praia? Ou elas devem ir para sua casa ver sua coleção particular ou comprar o seu artesanato para vê-las?’ Ponto final.

Mas nem esse questionamento resolve, pois todos pensam ter direito de pegar conchas na praia para seu filhinho, para um amigo, para sua coleção, para fazer artesanato e ganhar uma renda, etc. Aquela velha história do que é público não é de ninguém e é de quem se aproveitar primeiro.

Todas as praias tinham muitas conchas

Se retornássemos a um passado distante e visitássemos as praias notaríamos enormes diferenças, tanto na vegetação exuberante de restinga e de mangue, como na extensão da faixa de areia e, principalmente, na composição dessa areia. Notaríamos que todas as praias tinham muitas conchas, inteiras, quebradas ou com seres vivos dentro. Desde que o ser humano passou a coletar conchas começou a alterar o visual das praias, embora antes de uma forma mais lenta e moderada, pois éramos poucos.

As conchas eram coletadas para diversos usos, como adornos, moeda de troca, utensílios domésticos e ferramentas. Hoje em dia elas são coletadas principalmente para fazer artesanatos e coleções particulares. Quando a coleção tem um cunho científico ainda dá para entender, pois estará sendo útil para alguma pesquisa que auxiliará no manejo e no regramento de usos do espaço público das praias e de outros ecossistemas.

Sem conchas a praia se modifica

Uma praia totalmente sem conchas, apenas com grãos de areia tem um processo de transporte sedimentar diferente, ou seja, os grãos de areia redondinhos lado a lado são levados mais facilmente e de forma constante pela água, enquanto as conchas, que possuem formatos irregulares, são transportadas de maneira totalmente diferente. Isso já altera a dinâmica praial e pode, por si só, já causar algumas consequências, como maior erosão e/ou acúmulo em determinados trechos das praias.

Isso altera também a granulometria das praias, ou seja, a composição dos grãos dela, que normalmente seriam mais diversos e maiores devido ao tamanho das conchas e dos pedaços de conchas irregulares. Alguns micro-organismos intersticiais são impactados por essa alteração, ou seja, alguns animais e algas muito pequeninos que vivem enterrados no solo das praias acabam não se adaptando e morrendo por não conseguirem viver entre os apertados grãos de areia, e com isso outros animaizinhos um pouco maiores que dependem destes também acabam não se adaptando às mudanças.

Além disso elas provém uma área maior de substrato duro para outros organismos se fixarem e que não conseguiriam em pequenos grãos de areia, tais como algas, anêmonas, corais, ascídias, esponjas, briozoários, poliquetas, enfim, uma enorme diversidade marinha que não estaria ali sem as conchas.

Conchas permitem a vida

Além desses organismos diminutos, outros seres dependem das conchas que são fabricadas especialmente por moluscos (caramujos ou caracóis marinhos, mexilhões, ostras, berbigões…), tais como os ermitões. Os ermitões são crustáceos, parentes dos caranguejos e lagostas, que possuem a parte traseira do corpo ‘mole’, sem a dura carapaça que normalmente protegem os crustáceos. E isso é uma adaptação que encontraram para enfiar o corpo dentro das conchas vazias para se proteger de predadores. E para cada espécie de ermitão há um tipo de concha preferencial que se adapta melhor ao formato do corpo. E, à medida que ele vai crescendo, o tipo e tamanho das conchas que melhor se encaixam também se altera. Algumas espécies não conseguem mais atingir um tamanho maior por falta dessas conchas, e as populações de ermitões acabam ameaçadas pela escassez delas, já que sem elas eles não sobrevivem.

E quem nunca comeu sushi? Aquela alga que enrola o arroz, o Nori, é de um gênero chamado Porphyra e aqui no Brasil temos um parente dessa alga, porém não utilizada na culinária. E essa alga tem duas fases de seu ciclo de vida, uma das fases depende das conchas, pois ela se fixa na parte interna das conchas para depois completar o ciclo nas partes altas de algum costão rochoso.

Como vimos os moluscos produzem as conchas retirando carbonato de cálcio da água do mar e produzindo essas incríveis estruturas para proteção própria. Sem as conchas os moluscos não sobrevivem e pegar eles vivos para simplesmente utilizar suas conchas é errado, especialmente quando se usa técnicas cruéis para retirar o animal da concha como água fervente, sal ou outros líquidos que judiam do ser vivo. Isso é mesquinho, além de desumano.

Algumas conchas possuem formato encaracolado feitas pelos caracóis ou caramujos, outras possuem duas conchas como dos mexilhões, berbigões e ostras, outros com formato de chapéu de bruxa ou vulcão, com ou sem furinho na ponta, podendo estes serem feitos por moluscos e também pelas cracas, que são crustáceos que vivem nos níveis mais altos de um costão rochoso e são facilmente vistos. Além das cracas alguns poucos organismos também produzem estruturas externas semelhante às conchas, além dos moluscos, que são os principais fabricantes do mar.

E há outras estruturas internas de animais que usamos para enfeites, como estrelas e ouriços do mar, corais, algas e diversos outros esqueletos de outros animaizinhos. Muitos destes também com sua importância no ambiente marinho.

Carbonato de cálcio para o mar

Além de tudo o ser humano faz uma péssima troca com o mar, retirando toneladas e mais toneladas de carbonato de cálcio através da extração de conchas, devolvendo dióxido de carbono e outros elementos que auxiliam na acidificação da água do mar. O carbonato de cálcio auxilia a manter o pH da água do mar mais básico, ou seja, ele ajuda a contrabalancear a acidificação causada por nós.

E essa acidificação traz grandes prejuízos no ciclo de muitas espécies, como corais, algas e os próprios moluscos, gerando um grande desequilíbrio ambiental que pode causar consequente diminuição de diversas populações de algas e animais, incluindo as que utilizamos para alimento, tanto do setor pesqueiro quanto do extrativista.

Colete lixo e não conchas

Se quer ajudar a mantermos um oceano equilibrado e as praias lindas e balneáveis então colete lixo ao invés de conchas. Hoje em dia é muito mais fácil caminhar pelas praias e achar bitucas de cigarro, copos plásticos, canudos, tampinhas de garrafa e outros lixos mais nojentos do que conchas. A quem faz artesanato há uma gama de possibilidades de se realizar artesanatos bonitos com lixos encontrados nas praias. Há uma ONG na África do Sul que produz artesanatos com chinelos encontrados no mar. De garrafa pets já se tem uma variedade enorme de produtos e com criatividade a tudo se pode dar uso.

Portanto também não financie o artesanato com conchas, não compre de lojas que vendam produtos com conchas ou esqueletos de animais, como estrelas, ouriços e corais. Dê preferência a produtos reciclados e converse com artesãos e donos de lojas para adotarem a ideia de fazerem produtos com o lixo das praias ao invés de conchas.

E, ao invés de colecionar conchas, colecione fotos de conchas, o mundo digital está aí para facilitar a vida de colecionadores, a coleção virtual é muito mais fácil de manter e armazenar, além de poder ser carregada a qualquer lugar para mostrar para qualquer um!!!

Afinal qual praia você prefere? Com lixo ou com conchas?

A escolha é sua, faça sua parte!

GUILHERME FLUCKIGER É OCEANÓGRAFO FORMADO PELO INSTITUTO OCEANOGRÁFICO DA USP, INSTRUTOR DE MERGULHO AUTÔNOMO CMAS E POSSUI HABILITAÇÃO DE MESTRE AMADOR. TRABALHOU COM TRILHAS DE MERGULHO LIVRE E PASSEIOS DE PRAIA POR VÁRIOS ANOS NO PARQUE ESTADUAL DA ILHA ANCHIETA E POR DIVERSAS PRAIAS EM UBATUBA. RESIDE NA CIDADE HÁ 6 ANOS DE FORMA DEFINITIVA, DESDE ENTÃO OBSERVANDO E FOTOGRAFANDO A NATUREZA.

E-mail: naguiubatuba@gmail.com