COLUNA ILHAS LITERÁRIAS
Primeiro dia de aula (Teca Aliende)

Ilhas Literárias #04

Mapa do tesouro

Chegou a vez da crônica! No brilhante texto “Primeiro dia de aula”, a autora Teca Aliende oferece-nos uma joia cotidiana de imenso valor: o olhar sincero e revelador desta professora da Escola Municipal Madre Glória (Parque dos Ministérios, Ubatuba). Uma professora que ama seus alunos ao ver, em cada um deles, a menina encantadora e sagaz que ela mesma foi, no seu primeiro dia de aula. Neste movimento quase mágico de se dobrar para uma mesma situação noutro tempo, Teca nos ensina uma lição que estamos todos precisando muito de (re)aprender: como expressar indignação com beleza.

A autora por ela mesma

Moradora de Ubatuba desde os 05 anos de idade, sempre tive uma paixão muito grande por escrever. Sou poeta, educadora e fui gestora por 13 anos de uma escola pública. Amo a educação, a arte e a alegria; essas coisas deveriam caminhar juntas!

Primeiro dia de aula

O primeiro dia de aula foi inesquecível para mim.

Quando entrei naquela escola, achei-a muito grande e escura. Segurava forte na mão de minha mãe, que me encaminhava para “o mundo da aprendizagem.”

O primeiro dia é sempre uma surpresa para a criança – ela não imagina o que a espera dentro de uma escola.

Caminhamos por um pátio aberto, depois chegamos ao pátio coberto e ficamos ali esperando o chamado da professora, que pegava uma lista e ia falando os nomes e colocando cada um para dentro da sala. Até aí foi tudo tranquilo.

Quando cheguei à sala de aula, observei as paredes que não tinham nada, era uma sala opaca, sem nenhum atrativo para uma criança. A professora perguntou nosso nome, e fez o primeiro teste conosco. Logo percebeu que eu já sabia ler bem mais que meus coleguinhas, chamou a professora de outra classe e mostrou minha atividade. No dia seguinte ela me disse: “Terezinha, você vai para outra sala com a professora Flora!”

Eu fui sem entender muito, só agora sei que aquela sala em que eu estava era dos fracos e pobres, e a sala para onde eu fui depois era dos fortes pobres. Quando entrei na sala, percebi uma alegria diferente de tudo que já vi, a professora tinha cheiro de rosas, pegava os alunos no colo, a sala era alegre e perfumada, tudo era melhor nela, mesmo eu sendo a única negra da turma.

Mas havia ainda outra sala naquela escola, que me parecia um santuário: no final do corredor havia uma sala toda cheia de cortinas, as carteiras tinham toalhas quadriculadas iguaizinhas.

E a professora? Nossa! Ela era uma boneca com vida, usava batom bem vermelho, brincos grandes de argolas, salto muito alto, e calças agarradas que delineavam seu corpo esbelto e longo, tinha um coque meio solto no cabelo, que dava a ela um charme especial – nossa que mulher linda!

Perguntei a uma colega que sala era aquela, e ela me contou que era a sala dos ricos. Porque rico não tem forte e fraco, só fortes!