PESQUISA DA UNESP
Parques estaduais de SP falham na proteção de mamíferos da Mata Atlântica

Pesquisadores do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro descrevem um cenário preocupante em artigo publicado na revista Animal Conservation no final de 2016, intitulado “Defaunação e colapso de biomassa de mamíferos no maior remanescente da Mata Atlântica”.

Entre 2002 e 2012, eles realizaram um censo populacional de mamíferos em 12 parques estaduais de São Paulo ao longo do maior remanescente da Mata Atlântica, a biorregião da Serra do Mar, uma área estimada de 8000 km². Cada local foi monitorado por pelo menos 1 ano.

As Unidades de Conservação paulistas escolhidas para a pesquisa foram Ilha do Cardoso, Ilhabela, Carlos Botelho, Intervales, Jacupiranga, Jurupará, Petar, Caraguatatuba, Cunha, Jureia, Vargem Grande, além de Picinguaba, núcleo do Parque Estadual da Serra do Mar que abrange 80% do território total do Município de Ubatuba.

Pesquisadores realizam censo de mamíferos em parques. (Foto: Mauro Galetti)

“Esse artigo saiu para mostrar que as Unidades de Conservação, apesar do nome, não estão conservando muito”, diz o ecólogo, doutor e pesquisador do Departamento de Ecologia da Unesp Rio Claro, Ricardo Bovendorp, que participou do estudo. “Foi um artigo que a gente lançou em uma revista internacional para chamar a atenção para uma problemática muito evidente para nós”, comenta.

Em entrevista concedida por telefone ao InforMar Ubatuba, o pesquisador afirma que “o grande problema dos parques é realmente falta de investimento por parte do Estado, já que os parques são estaduais”. Segundo Bovendorp, o corte de funcionários nos últimos anos é muito preocupante e reflete diretamente na conservação dos animais e da floresta.

O núcleo Picinguaba apresentou resultados desanimadores. “Em Picinguaba, a gente quase não tem médios e grandes mamíferos presentes. Só três espécies foram registradas em quase 203 quilômetros de transecção linear nas trilhas dentro do Parque em que os pesquisadores foram autorizados a acessar”, diz o ecólogo.

O estudo traz uma tabela que mostra os registros de oito espécies de mamíferos nos parques monitorados. No núcleo Picinguaba foram registradas a presença de cotias, esquilos e quatis, mas não houve nenhum registro de queixadas, macacos-prego, saguis-da-serra, muriquis, nem de bugios. Isso não significa que eles tenham sido necessariamente extintos em Ubatuba, mas que pelo menos estariam correndo sério risco. “Existem alguns relatos. Não é que não existam. Eles não foram detectados”, explica Bovendorp.

Muriqui (Foto: Mauro Galetti)
Queixada (Foto: Mauro Galetti)

LISTA VERMELHA

Das 44 espécies de mamíferos não-voadores registradas nos parques, duas são classificadas como Ameaçadas, seis como Vulneráveis e sete como Quase ameaçadas, de acordo com o Status da Lista Vermelha da International Union for Conservation of Nature (IUCN).

A caça ilegal é uma prática muito comum em todos os parques do estado de São Paulo, segundo o pesquisador. “A gente consegue ver poleiros, ceva, armadilhas. Infelizmente existem esses vestígios. A gente consegue detectar dentro do mato o corte do palmito, a caça, isso é muito triste”, lamenta. O artigo afirma que a biomassa de mamíferos diminuiu até 98% em locais de caça intensa e foi 53 vezes menor que em outras florestas neotropicais não fragmentadas.

O pesquisador responsável pelo estudo, professor do departamento de Ecologia da Unesp, Mauro Galetti, aponta que “a baixa densidade de primatas, especialmente muriquis, pode estar relacionada à pressão histórica e atual da caça por populações tradicionais”, que não têm tabu para comer primatas.

O estudo sugere que as principais estratégias de conservação para essas regiões são promover a conservação efetiva, reduzindo a caça ilegal, a coleta de palmito e a exploração madeireira.

A Secretaria Estadual do Meio Ambiente, responsável pelos Parques, evita comentar a situação das Unidades de Conservação. Até o fechamento desta edição, a assessoria de imprensa da Fundação Florestal não havia respondido aos pedidos de informação elaborados pelo InforMar, nem ao pedido de entrevista com o gestor interino do núcleo Picinguaba, Carlos Paiva da Silva, que cobre licença da gestora titular Cláudia Camila Faria de Oliveira.

O biólogo Carlos Paiva assumiu interinamente a gestão do PESM – Núcleo Picinguaba no dia 10/04/17. A Fundação Florestal ainda não respondeu à solicitação de entrevista com o gestor, enviada pelo jornal InforMar Ubatuba no dia 27 de abril.