HISTÓRIA
Os trinta anos daquele verão

De tão inusitados, os acontecimentos do verão de 1987/88 parecem saídos de algum conto de Chuck Palahniuk ou Saramago. É fácil pensar que tudo não passa de lenda propagada por tiozões brisados para contar vantagem. No entanto, é verdadeira a história do famoso ‘‘Verão da Lata’’, quando milhares de latas de maconha apareceram no mar e nas praias.

Em setembro de 87, o navio Solana Star, partiu da Austrália com destino a Miami, após uma breve escala em Singapura, onde foi carregado com 22 toneladas de flor de plantas do gênero Cannabis, mais conhecidas como maconha, classificada como a 11ª droga mais perigosa segundo ranking elaborado por médicos da Universidade de Bristol e do Conselho de Pesquisa Médica da Grã-Bretanha, atrás apenas de substâncias como heroína, cocaína (e seu irmão, o crack), barbitúricos, metadona, álcool, quetamina, benzodiazepinas, tabaco e buprenorfina.

Esse fumo todo jamais chegaria aos consumidores dos EUA e Canadá, onde naquela época também eram adotadas políticas proibicionistas. Acontece que agentes do DEA (Drug Enforcement Administration, órgão estadunidense de controle de narcóticos) já sabiam do navio e estavam a fim de dar o bote na quadrilha que abastecia os consumidores mais exigentes da América do Norte.

Tribuna da Imprensa – 1987

SOBROU PRO COZINHEIRO

Embora não tenha sido abordada, na altura de Cabo Frio (RJ), a tripulação do Solana Star avistou a fragata Independência, da Marinha do Brasil, e decidiu abandonar a carga em pleno mar . A fragata da Marinha não tinha visto o Solana Star, que talvez pudesse ter chegado ao seu destino com a valiosa carga se não tivesse tomado a drástica decisão.

Nos meses que se seguiram, milhares de latas apareceram nas praias trazidas pelas marés, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, mas a maior concentração foi no Litoral Norte de São Paulo. O navio acabaria apreendido no porto do Rio de Janeiro. Mas os traficantes já tinham até saído do país. Só o cozinheiro do barco, Stephen Skelton, foi preso.

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O VERÃO COMEÇOU MAIS CEDO

Logo o litoral estava lotado de turistas apreciadores e de polícia, todos em busca das tais latas. Mas as autoridades só conseguiram apreender ou ‘‘pescar’’ menos de três mil dentre as 15 mil latas jogadas no mar pela tripulação do Solana Star. Das latas apreendidas pela polícia, 843 foram recolhidas em Ubatuba. O que significa que por aqui chegaram milhares de outras.

“O fumo era realmente bom. Tanto que ‘da lata’ virou gíria para coisa boa”, lembra a veterinária C. P., que achou uma lata quando passeava com seu cão Tantor pela praia das Toninhas. “Era comum sairmos à procura das famosas latinhas. Na época, só se falava disso aqui em Ubatuba. Dois anos depois, eu ainda tinha fumo da lata”, recordou.

O Crime Organizado viu abalado o monopólio que o Estado lhe assegura por meio da política proibicionista. A qualidade do fumo da lata era muito superior à da erva vendida normalmente no Brasil, que costuma ser carregada de agrotóxicos e conservantes como amoníaco, além de mofo, o que acaba por causar riscos adicionais à saúde dos usuários. A professora L. M. veio de São Paulo com amigos em busca das latas. Não encontrou nenhuma, mas acabou comprando uma de um pescador da Puruba. “Era muito diferente dessa maconha que tem por aí, com um monte de coisa misturada que a gente nem sabe o que é. Eu só fui experimentar uma coisa parecida com aquela depois de muito tempo, graças a um amigo que uma vez plantou uma mudinha na casa dele’’, contou à reportagem.

Jornal do Brasil – 1987
Tribuna da Imprensa – 1987

POESIA

O InforMar Ubatuba recebeu dezenas de depoimentos de pessoas que estavam em Ubatuba no verão de 1987/88, quando apareceram as latas. Teve gente que fez até poema na época e relembrou para nos contar. A autora pediu para não ser identificada. 

É uma dádiva do céu
Um presente do mar
Malucos, alegrai-vos!
Ela veio para os alucinar
Viajando sob o céu azul
De repente, surpresa!
É algo a brilhar
Na imensidão do mar
Pequena, prateada
A lata
Boiando preguiçosa
Presunçosa latinha
Deliciosa, perigosa fantasia
Perseguida, maldizida, idolatrada
Salve, salve!
Mil e meia gramas de alegria
Estocadas, prensadas
Numa latinha…

DEU ONDA E DEU SAMBA

Márcio Vieira, membro da diretoria do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Alegre do Itaguá, lembra bem daquele verão. “Foi uma febre. Todo mundo tinha maconha em Ubatuba. Teve gente que comprou casa, comprou terreno, comprou carro, por que a lata tinha quase dois quilos, então o pessoal fazia negócio com a turma que vinha de fora aí”, disse Vieira.

Ele recorda que em 88 a prefeitura suspendeu o desfile das escolas de Samba, mas organizou concurso de blocos. A Gresmai desfilou sob o nome de Fio de Ouro e levou o tema para a avenida. A marchinha de autoria de Mamaco dizia:

Encontrei no seligue (sutiã) da gatinha 
Uma latinha especial 
Que eu trouxe bem guardada 
Para curtir o Carnaval

Tem um pouquinho aqui
Tem um pouquinho lá
Essa latinha esta dando o que falar

Hoje o mar não está pra peixe 
O que tinha já meteram a mão 
Só ficou o caranguejo
com o desejo de ficar muito doidão

E o Itaguá foi campeão.