COLUNA FAUNA TAMOIA - GUILHERME FLUCKIGER
O pão não está para peixes, mas o mar está!

Chegam as férias de verão e feriados e o destino preferido de quem não mora no litoral são as cidades praianas. Uma das atividades de quem vai curtir a praia com a molecada é a observação de peixes no rasinho. Uma atração legal e ecológica, exceto quando se usa alimentos humanos para atrair os peixes para perto. Embora o pãozinho seja o item preferido, uma gama de outros alimentos são jogados no mar, como salgadinhos, bolachas, milho, frios e o que mais estiver na ‘farofada’ levada para a praia. E a quantidade de alimentos oferecidos é imensa nessa época, chegando a passar os 200 pãezinhos por dia, fora os outros itens alimentares, só na pequena área da piscininha natural da praia da Fortaleza, aqui em Ubatuba.

Turistas oferecendo pão e salgadinhos para os peixes na piscininha natural da praia da Fortaleza.

Não faz bem para os peixes, na verdade nem para a gente!

Cada animal está adaptado a algum tipo de dieta alimentar, uns são carnívoros, outros herbívoros, outros onívoros, etc. e alguns possuem dietas mais restritas. Por exemplo, alguns peixes herbívoros se alimentam de determinadas algas, já o cavalo marinho se alimenta de pequenos invertebrados que caibam em sua pequena boca, uma gama de animais vagarosos (chamados de semi-sésseis) se alimentam de animais que não podem fugir, geralmente fixos (sésseis). E alguns peixes, como o sargentinho, a corcoroca e o marimbá são oportunistas, ou seja, comem de tudo que aparecer pela frente.

Sargentinho (Abudefduf saxatilis) é uma espécie oportunista e cosmopolita, ou seja, comum em praticamente todos os lugares.

Mas mesmo esses peixes oportunistas tem seu corpo, seu sistema digestório, adaptados para uma dieta de itens alimentares marinhos. Estão acostumados a digerir pequenos invertebrados, larvas de outros animais, algumas algas, etc. Eles não estão acostumados a digerir alimentos totalmente diferentes de origem terrestre e industrializados como pães e salgadinhos. A composição de um pão é totalmente diferente de um crustáceo, por exemplo. No pão vai farinha industrializada e fermento químico, não tem as proteínas do crustáceo e outros produtos necessários para o metabolismo dos peixes.

Cardume de corcorocas (Haemulon sp), outro peixe que se adaptou bem à oferta de alimentos humanos industrializados.

Ou seja, esses alimentos acabam enfraquecendo os peixes, deixando-os mais frágeis e suscetíveis a doenças. Na realidade pães, salgadinhos, frios e outros produtos industrializados não fazem bem nem para a gente, conforme estudos de instituições que pesquisam a relação direta de alimentos e algumas doenças, como o câncer.

Não faz parte do ciclo natural no ambiente marinho

Como já mencionado cada animal está acostumado com determinado tipo de alimento, sejam algas, outros animais ou carcaças. Conforme os ambientes foram se modificando ao longo do tempo, os seres vivos foram se adaptando ao ambiente e também uns aos outros. O predador desenvolveu novas técnicas de caça, a presa novos meios de fuga, os herbívoros ganharam dentes ou bicos fortes, as algas produzem novos subprodutos ‘repelentes’ e por aí vai. Tudo está em um equilíbrio natural, que em alguns micro-ambientes são mais sensíveis que outros.

Quando colocamos mais que 10kg por dia de massa, gordura e produtos industrializados em um ambiente restrito causamos um desequilíbrio nesse local, nessa cadeia alimentar. Esse recurso fácil acaba sendo aproveitado por diversos peixes oportunistas que se aglomeram naquele local, causando uma competição, tanto pelo recurso fácil como para outros itens alimentares quando o pão não está presente em quantidade suficiente naquele momento.

Saco de pão deixado por turistas em cima das pedras. Além do impacto nos peixes e na água, o lixo deixado no ambiente.

Outro aspecto importante é a alteração química na cadeia e no ambiente. Como explicado no outro parágrafo o metabolismo das espécies que se alimentam desses itens artificiais é alterado, assim como de seus excrementos e de seus predadores. Pode ser sutil, insignificante, mas pode não ser. E vários itens oferecidos são extremamente gordurosos e acabam ‘poluindo’ a água do mar, especialmente em sua superfície prejudicando diversas algas e pequenos animais. Isso se acumula com os óleos bronzeadores, óleos de embarcações, etc.

Outro impacto é o pisoteamento sofrido pelos animais dos costões quando as pessoas tentam chegar em locais mais difíceis pelas rochas.

Fora alguns itens que são jogados e que peixe nenhum come, ficam como lixo no fundo do mar, apodrecendo em águas com pouca circulação. E o mesmo ocorre com o excesso de alimentos jogados.

Acabou a temporada, e agora sargento?

Cardume de sargentinhos, muito comuns e abundantes nas áreas mais visitadas por seres humanos e mais ainda onde alimentam os cardumes com alimentos artificiais.

E finalmente, quando termina a alta temporada e não são mais ofertados os quilos de porcarias aos peixes, como é que o cardume imenso de sargentinhos vai se virar?

Provavelmente irão atrás de outros itens alimentares competindo com os outros peixes que sobreviveram às loucuras humanas de uma alta temporada de verão. Naturalmente há uma variação de oferta de recursos durante o ano, claro. Mas essa oferta artificial excessiva nas altas temporadas com toda certeza gera um desequilíbrio nessa relação oferta-demanda, por menor que seja.

Cardume de sargentinhos e corcorocas, os mais abundantes na piscininha da praia da Fortaleza e que mais se adaptam aos alimentos ofertados durante as temporadas.

E então, o que podemos fazer?

Observação de peixes é uma atividade prazerosa e boa para a preservação se feita de maneira correta.

Nós podemos continuar observando os peixes e a fauna marinha, em geral, sem precisar usar pães ou outros alimentos impróprios para atraí-los. Nessa mesma piscininha natural, enquanto um grupo de 7 pessoas jogava pão para peixes por 20 minutos observou três espécies (sargentinho, corcoroca e marimba) e se cansou, indo fazer outra atividade, uma outra pessoa sozinha observou cerca de 14 espécies diferentes de peixes, duas de crustáceos, fora as algas e outros organismos sésseis durante mais de meia hora e continuava observando interessadamente. Ou seja, basta pararmos um pouco nosso ritmo frenético e observar a natureza, deixar com que os animais se acostumem com a nossa presença e eles naturalmente se aproximarão.

Peixes borboletas (Chaetodon striatus) e salemas (Anisotremus virginicus) podem ser observados também se observarmos pacientemente.
E se olharmos atentamente até os peixes mais camuflados podem ser vistos.

E que fique claro que a observação dos peixes em si é excelente, desenvolve um contato direto com a natureza, estimula a curiosidade sobre a vida marinha e faz as pessoas quererem manter aquele ambiente preservado.

Baiacus também são comumente encontrados no raso.

E uma boa prática é a capacitação e subsídio de pessoas locais para levarem os turistas a conhecer, não apenas os peixes, mas a rica diversidade costeira de fácil acesso das praias e costões, que é tão menosprezada e desconhecida, mas que tem um belo potencial de fascinar o público.

A beleza de um lírio do mar que se desprendeu das rochas. É um animal e parente dos ouriços e estrelas do mar.

Quando for para a praia, lembre disso, pare, relaxe e observe a beleza que o cerca!!!

 

GUILHERME FLUCKIGER É OCEANÓGRAFO FORMADO PELO INSTITUTO OCEANOGRÁFICO DA USP, INSTRUTOR DE MERGULHO AUTÔNOMO CMAS E POSSUI HABILITAÇÃO DE MESTRE AMADOR. TRABALHOU COM TRILHAS DE MERGULHO LIVRE E PASSEIOS DE PRAIA POR VÁRIOS ANOS NO PARQUE ESTADUAL DA ILHA ANCHIETA E POR DIVERSAS PRAIAS EM UBATUBA. RESIDE NA CIDADE HÁ 8 ANOS DE FORMA DEFINITIVA, DESDE ENTÃO OBSERVANDO E FOTOGRAFANDO A NATUREZA.

Contato: naguiubatuba@gmail.com

Revisão: Nathalye Mieldazis