COLUNA FAUNA TAMOIA - GUILHERME FLUCKIGER
O guaruçá e o muro na praia

Guaruçá, maria farinha, guruçá, vaza maré, caranguejo fantasma são alguns dos nomes desse caranguejo tão comum em nossas praias. Seu nome científico é (Ocypode quadrata).

 

POR GUILHERME FLUCKIGER

A vida na praia da maria farinha, também conhecida na região como guaruçá, não anda nada fácil, assim como de muitos outros moradores de nossas praias, como outros caranguejos e siris. São muros, construções, desmatamento de restingas e jundús, turistas perseguindo e massacrando a fauna indefesa e por aí vai. Vamos ver como vivem os guaruçás e o que eles enfrentam para conseguir sobreviver.

Caranguejo fantasma

Outro nome popular do guaruçá é caranguejo fantasma, além de sua cor amarela a branca discreta, que se confunde nas areias das praias, costuma se esconder rapidamente correndo de lado em direção a sua toca, ao ver a aproximação de pessoas, fazendo jus a esse outro nome.

Outros métodos de fuga do possível predador é se enterrar na areia, deixando de fora apenas os dois olhos, que ficam no final de um pedúnculo móvel, ou então eles se lançam ao mar. Muitas vezes também podemos observar os dois olhinhos para fora da água na espuma das ondas.

Já o nome científico é Ocypode quadrata, que vem do grego okys – ágil e pode – patas, referindo à agilidade deste caranguejo e quadrata a seu formato de corpo. Sua cor varia de amarelo a creme na parte dorsal (costas do animal) da carapaça e branca na parte ventral (barriga) e nas garras. Já os jovens são pardo esbranquiçados com manchas irregulares marrons e cinzas por todo o animal. Os adultos na nossa região chegam a cerca de 4 cm de largura.

 

Vista da parte dorsal de um guaruçá adulto, revelando suas cores da carapaça, garras e patas.

 

Caranguejo fantasma escondido sob a areia, apenas com os dois olhinhos de fora. Se enterra em poucos segundos.

 

Vista da parte da frente podemos ver os olhos em cima do pedúnculo móvel que pode ser mexido para esconder os olhos nas reentrâncias da carapaça.

 

Caranguejo fantasma escondido sob a areia, apenas com os dois olhinhos de fora. Se enterra em poucos segundos.


Da areia ao mar

A diferença entre machos e fêmeas é vista através do abdômen que fica dobrado por baixo do corpo deles, como na maior parte dos caranguejos. A fêmea possui o abdômen mais largo que o macho para poder alojar os ovos durante o período de reprodução, que aqui ocorre ao longo do ano inteiro, diferentemente de locais mais frios, onde ocorrem somente durante a primavera e verão.

As larvas são lançadas ao mar e quando se desenvolvem os jovens voltam para a areia, onde passam o restante de suas vidas. Normalmente os mais jovens fazem suas tocas mais próximos da linha da água, pois os adultos resistem mais ao dessecamento das brânquias, podendo fazer suas tocas mais afastadas da linha da água, perto da vegetação.

 

Juvenis de maria farinha costumam fazer suas tocas mais próximas à linha da maré.

 

E os adultos maiores fazem suas tocas mais perto da vegetação, onde buscam proteção.

 

Limpeza de praias

Por ser um animal oportunista o guaruçá tem importante papel na limpeza das praias, aproveitando restos de animais e matéria em decomposição para se alimentar. Outros itens alimentares bastante procurado por eles são pequenos invertebrados, como abelhas, vespas, besouros e tatuíras.

Quando a maré deixa uma linha repleta de algas, folhas e outros materiais orgânicos as maria-farinhas aproveitam para procurar por alimentos, já que entre as algas, por exemplo, muitos seres diminutos como caramujos, caranguejos e seus familiares se abrigam. Quando as algas são jogadas pelo mar para a areia da praia levam consigo muitos desses pequeninos animais.

 

Guaruçá fazendo a limpeza da praia.

 

Insetos estão no cardápio do caranguejo fantasma, especialmente os que acabam caindo na água e jogados na areia pelas ondas.

 

Guaruçás também são encontrados durante a noite circulando pelas praias.

 

Tocas para proteção, mas que precisam ser protegidas

O guaruçá escava suas tocas do nível da maré para cima, dependendo do tamanho do animal, quanto maior o caranguejo mais longe da linha da água são feitos os buracos. E a profundidade da toca também aumenta proporcionalmente ao tamanho do animal. Essas tocas, geralmente no formato da letra ‘J’, servem de abrigo e proteção.

A quantidade de tocas pode servir como um bioindicador, ou seja, pode indicar a qualidade da praia ambientalmente. Em praias com desmatamento de restingas e jundús e construções como muros, por exemplo, é difícil ver indivíduos adultos grandes. Um dos motivos é que os espaços entre a vegetação do jundú e da restinga servem de proteção extra para esses caranguejos adultos, tanto em relação a predadores, como a coruja buraqueira e outras aves, répteis e mamíferos, como contra as ressacas.

Durante a ressaca tocas em áreas mais altas são necessárias para a sobrevivência desses crustáceos e, durante os últimos anos, a frequência e intensidade das frentes frias que provocam as ressacas estão aumentando. Junto a esse problema a remoção da vegetação e construção de muros aumentam a tendência de erosão das praias, fazendo com que futuramente, não só os guaruçás percam seus espaços para construção de tocas, mas todos os outros animais percam as áreas de praia, inclusive nós, seres humanos.

Outros impactos nas praias que acabam influenciando a população de guaruçás são: excesso de pessoas durante as altas temporadas, circulação de veículos na praia, limpeza inadequada das praias com caminhões pesados circulando na faixa de areia, animais exóticos soltos e diversas pessoas totalmente sem noção de civilidade matando os animais das mais diversas e cruéis formas.

 

Toca recém escavada, com a areia jogada para fora do buraco.

 

Rastros do guaruçá na areia.

 

Restos de maria farinha predada por um carcará, dono das pegadas na areia.

 

E aqui este caranguejo foi desenterrado de sua toca e morto por um cachorro criado solto que largou o animal na areia.

 

A queda do muro

Aqui vão algumas dicas de como proteger os guaruçás e nossas praias:

– Replantar jundús e recuperar restingas em áreas degradadas ou com espécies vegetais exóticas;
– Se possuir uma casa na beira da praia com muro, procure substituir o muro por vegetação nativa de jundú e restinga, além de ficar esteticamente mais bonito, estará ajudando a manter a praia para futuras gerações, evitando a erosão da mesma;
– Não circular ou evitar circular com veículos na praia, especialmente durante a noite;
– Não deixar seu animal de estimação solto pelas praias, restingas e jundús;
– Divulgar e difundir essas informações, incentivar as pessoas a colaborar e promover discussões a respeito de melhorias para nossas praias, tanto em condomínios particulares ou com proprietários de residências a beira mar, quanto com o poder público.

 

Muros na praia no lugar da vegetação nativa causaram a erosão nesse trecho da praia do Massaguaçu.

 

Aqui vários impactos que afetam direta e indiretamente os guaruçás e a qualidade da praia, como carro na faixa de areia, muro na praia e no rio, vegetação exótica ao lado e acampamento.