MATA ATLÂNTICA
Moradores usaram paus, baldes e facões para conter incêndio em Ubatuba

Murilo, Edson, Tinó, Bruno, Felipe, Guilherme, Arthur, Nathalye, Wesley, Gabriel, Renato, Jeferson, Ana Rosa, Marcos e Márcio foram alguns dos moradores “anônimos” que no último domingo, 24 de setembro, combateram um incêndio florestal, na região sul de Ubatuba. O fogo que consumiu boa parte do morro entre as praias da Fortaleza, do Cedro e do Bonete só não foi maior graças à ação de alguns moradores das comunidades. Esses voluntários jamais se esquecerão dos nomes de Adelson, Nelson e Marcelino, funcionários da Defesa Civil que, o quanto puderam, ajudaram no combate ao incêndio que durou mais de sete horas no local de difícil acesso.

“Entramos no fogo literalmente por que era a única coisa que a gente podia fazer pra acabar com o fogo antes que ele acabasse não só com a natureza, como também com algumas casas”, disse Edson Silva, morador do Bonete que também se preocupa com as nascentes de água localizadas na área atingida, importantes para o abastecimento da comunidade isolada.

O coordenador da Defesa Civil de Ubatuba, Guaraçay dos Santos, disse que “foi um incêndio de grandes proporções”. Segundo ele, a Defesa Civil foi acionada pelo corpo de bombeiros às 16 horas e enviou três funcionários, que teriam chegado ao local meia hora depois. Os bombeiros estariam atendendo à uma outra ocorrência naquele momento.

“Nossa equipe utilizou-se de abafador. Os voluntários que por lá se encontravam, usavam balde com água, paus, e outros meios”, afirmou Guaraçay. Ele conta que sua equipe está preparada para agir em casos de incêndio, pois já passou pela chamada Capacitação para a Operação Corta Fogo.

A equipe da Defesa Civil agiu em conjunto com moradores voluntários. Segundo o coordenador, por volta de 15 pessoas colaboraram. O fogo teria continuado até dez da noite, quando Guaraçay diz ter sido avisado sobre o fim do incêndio. “Vinte e duas horas recebi a mensagem que o fogo estava totalmente controlado.”

Questionado sobre a origem do incêndio, ele respondeu que pode ter sido provocado intencionalmente. “A suspeita que temos, realmente, é que foi um fogo criminoso, colocado por pessoas que passam pela trilha do Bonete.” Ele disse que cabe à polícia civil ou militar investigar. Se houver alguma suspeita, ele recomenda que a população denuncie via 190 à Polícia Militar ou Ambiental.

“Nessa operação também, o Prefeito Sato, estivemos constantemente nos comunicando, o prefeito até perguntando se havia necessidade de acionar o águia, aí eu falei para o Prefeito que não havia necessidade, tendo em vista que as três aeronaves do águia estavam ajudando a combater o fogo lá em Bananal, que foi decretado estado de emergência e lá as proporções foram muito maiores que aqui”, informou o coordenador da Defesa Civil. Questionado sobre os locais de maior ocorrência de incêndios em Ubatuba atualmente, ele disse que tem havido muitos focos no morro da Pedreira, Pedreira baixa, morro das Moças e Sesmaria.

O local que pegou fogo é um terreno íngreme, de difícil acesso. O Bonete só tem acesso por trilha ou barco, e uma das trilhas parte do bairro da Fortaleza. Foi no morro entre essas duas praias que o incêndio aconteceu. A ação dos moradores locais foi fundamental na contenção à queimada.

No domingo, às 15h52, o repórter Leandro Cruz, do InforMar, recebeu a ligação de uma pessoa que estava no Bonete, alertando sobre o incêndio que avançava em direção à Fortaleza. Leandro entrou em contato com o ocenógrafo, Guilherme Fluckiger, morador do bairro da Fortaleza. O morador contou como agiu ao saber do fogo.“A gente mandou sobre o incêndio no grupo da Fortaleza [no WhatsApp], outra moça mandou foto nesse mesmo momento, então começamos a pegar os equipamentos para ir lá e tentar conter de alguma forma o incêndio. Os bombeiros já haviam sido acionados”.

Fluckiger lamenta a ausência dos bombeiros.“Quem chegou para ajudar, além dos moradores, foram três rapazes da Defesa Civil, o Adelson, o Nelson e o Marcelino. Eles vieram e ajudaram a gente desde a hora que eles chegaram, por volta de umas cinco e pouco, e ficaram até onze e meia da noite com a gente lá na mata”. O morador lembra que os instrumentos com os quais os voluntários podiam contar eram precários. “No começo a gente estava só com facão e manta. A gente molhava a manta e tentava abafar o fogo e um galão de cinco litros de água, que a gente ficava repondo numa bica que tinha ali perto. A gente não tem material adequado, fui com máscara e óculos de proteção de construção civil. Aí o pessoal da Defesa Civil chegou com duas mochilas de água e mais as vassouras-de-bruxa [abafador manual para combate a incêndio].”

Segundo moradores, os bombeiros só chegaram muito depois, quando um grande estrago já havia sido feito, mas ainda havia focos sendo combatidos pela Defesa Civil e por moradores dos dois bairros. Uma moradora teria levado os bombeiros até a trilha, mas eles não entraram na mata.

Também foram os próprios moradores que fizeram o trabalho de rescaldo no dia seguinte. Outra moradora da Fortaleza, Nathalye Mieldazis disse que dois dias depois esteve no local incendiado e ainda encontrou braseiros que poderiam reiniciar o fogo. “Hoje [26 de setembro] a gente esteve lá e tinha uma árvore ainda em brasa, saindo fumaça, a gente jogou água, tentou apagar, mas não apagava, a gente foi cortando com o facão para sair mais brasa, ficou pisando, isso hoje!”, contou.

Outros dois moradores da Fortaleza tiveram papel importante na ação de combate ao fogo: os caiçaras Gabriel Alexandre e Wesley Alves. “A gente estava trabalhando, era mais ou menos umas 2, 3 horas da tarde, começou a cair uma cinza, daqui a pouco a gente ouviu o pessoal falando na rua que estava pegando fogo no morro, mas a gente não imaginava o porte do fogo. Depois, umas 4, 5 horas da tarde a gente foi lá ver e acabamos subindo lá”, contou Gabriel.

Wesley também disse que não pensou que fosse tão grave.“De início a gente foi só pra dar uma olhada, achamos que não era coisa tão grande assim, mas chegamos lá e vimos que o pessoal estava precisando de ajuda. Já estava escuro, eles estavam sem lanterna. A dimensão do fogo estava bem maior do que a gente esperava. Eles [moradores e Defesa Civi] estavam quase aqui na Fortaleza, combatendo o fogo que estava vindo para cá. Porém, lá para o lado do Bonete o fogo já tinha alastrado, para o lado do Cedro, já estava bem grande”, afirmou.

O caiçara lamentou não terem tido mais ajuda. “Os bombeiros chegaram à noite, a gente já tinha feito essa ação junto com a Defesa Civil ali em cima, já tinha descido no Bonete, ajudamos a apagar o fogo que chegou a dois metros das casas, o pessoal ficou muito desesperado, tirou criança das casas, acharam que iam perder tudo mesmo.”

Eles contam que encontraram os bombeiros na trilha, quando voltavam para a Fortaleza. “Nisso uma moradora falou que tinha duas pessoas que tinham subido novamente onde tinha queimado porque ainda tinha fogo lá. Como ninguém tomou nenhuma atitude, acabamos indo eu, o Gabriel e um membro da Defesa Civil que ainda aguentava. A gente subiu, apagamos mais uns focos, mais umas árvores que estavam voltando a pegar fogo, voltamos com o Guilherme e com a Nathalye e assim encerrou essa noite, acho que às onze da noite”, explicou o morador.

O jornal InforMar Ubatuba entrou em contato com os bombeiros, que conversaram com a reportagem apenas “em off” por telefone, e pediram que o jornal enviasse o pedido de informações por e-mail. No dia 27 de setembro, a Seção de Comunicação do Corpo de Bombeiros autorizou o atendimento da solicitação da imprensa. “Informamos que não há impedimentos pelo Gabinete do Cmt. do Corpo de Bombeiros e pedimos que entre em contato com o solicitante para acerto dos detalhes”, dizia a mensagem. Mas o Corpo de Bombeiros de Ubatuba, até o fechamento desta matéria, ainda não havia retornado os pedidos de informação de nossa equipe, que continua à disposição para publicar as considerações da corporação sobre os fatos.

Após Guilherme e Nathalye percorrerem o perímetro a pé, registrando as coordenadas da área com um GPS, ele sobrepôs o polígono sobre imagens de satélite com ajuda da também oceanógrafa Andréa Lima de Oliveira, que fez um cálculo de que a área atingida seria de cerca de 72 mil metros quadrados, o que equivale a mais de 10 campos de futebol, isso sem levar em conta a declividade do terreno, o que aumentaria consideravelmente o resultado do cálculo da superfície do terreno. “Mas os estragos, na verdade, refletem muito mais, porque você tem o efeito de borda, o impacto da fauna ao entorno, que não tem mais essa área para caçar, para forragear, e dentro dessa área tiveram vários cursos d’água afetados, inclusive nascentes”, explica Fluckiger.

A fim de ajudar a recuperar a flora e a fauna perdida, associações de moradores dos dois bairros e de guias de turismo tem se mobilizado para realizar uma ação de reflorestamento da área. “Eu acho que esse reflorestamento tem que ser feito pela comunidade. Não pode vir uma empresa aqui falar que vai ajudar pra depois vir querer montar o seu negócio”, opina Arthur Ferreira, morador da Fortaleza que também ajudou a combater as chamas na floresta.

O morador do Bonete Edson Silva afirma crer que de alguma forma Deus os teria ajudado no combate, mas também chama a atenção para a necessidade de as comunidades estarem agora preparadas e alertas para responder melhor e mais prontamente a esse tipo de emergência.