COLUNA ILHAS LITERÁRIAS
Minha mãe mandou, mas e daí? (Sabrina De Meo)

Ilhas Literárias #06

Mapa do tesouro

É impossível não se apaixonar pela menina que Sabrina De Meo nos apresenta nesta crônica. A autora nos envolve e transporta para aquele momento da consciência em que sentíamos tudo com imensa intensidade, quando existíamos neste mesmo mundo, mas com dimensões de tempo e espaço extraordinários: a infância. Muitos escritores se aventuram a fazer literatura sobre a infância, mas poucos são os adultos que conseguem encontrar a exata coreografia de palavras que nos retira de nossa cansativa maturidade rotineira e nos devolve para a plenitude de sentimentos e pensamentos infantis. Em “Minha mãe mandou, mas e dai?”, Sabrina De Meo conseguiu criar essa máquina do tempo.

A autora por ela mesma

Sem destino fixo ou rótulos. Apenas, e sempre, apaixonadamente!

 

Minha mãe mandou, mas e daí?

Estávamos apaixonadas, minha melhor amiga e eu, pela criança-menino mais fofo da sala. Não me lembro como a coisa se deu. Mas ele, sabendo dos nossos interesses e de alguma forma pueril envaidecido pela dupla possibilidade, decidiu que escolheria com quem namoraria da forma mais madura possível.

E assim estávamos nós encostadas na parede enquanto ele lentamente começava apontando-nos o dedo:

– “Minha mãe man-dou eu ba-ter…”

Eu contava junto, ansiosa, com receio do resultado… cada sílaba uma virada de alvo…
– “…eu esco-lhoes-ta da…”

E o “da” – antecessor da escolha final e definitiva – parou em mim. F-I-M D-O M-U-N-D-O. Mas, por alguma simpatia que nunca vou entender qual foi – principalmente considerando a criança estranha que fui – ele interrompeu a seleção, disse que tinha contado errado e recomeçou de forma que a sílaba final coincidisse com seu dedo apontado para mim.

Foi a primeira vez que me apaixonei. Meu coração queria saltar pela boca, o dia ganhou uma cor diferente e eu tinha uma criança-menino que brincava comigo no tanque de areia. Sei lá quanto tempo depois num jantar com minha família anunciei:

– “Preciso conversar com vocês.”

– “Fala, filha, o que foi?”

– “Estou namorando.”

Risadas altas e sinceras, sabe-se lá por quanto tempo. Eu continuei firme. Naquele momento tudo era oficial: poderia continuar brincando com ele, fazendo desenhos juntos e algumas raras vezes até andar de mãos dadas. E assim se deu, por 1 ano inteiro… talvez menos ou mais. Tempo de criança nunca é preciso.

Fazíamos questão de sermos um par nas festinhas da escola. Lembro de uma ocasião em que fomos pedir para a “tia” nos destrocar de nossas duplas pré-selecionadas por ela.

Queríamos ficar juntos. E tudo caminhava bem até que um dia, já maduros e na pré-escola, ele quis “conversar comigo”.

E assim, por um motivo tão relevante quanto o que o fez tomar sua decisão, terminamos para sempre: eu era muito alta!