COLUNA OUTROS DESTINOS - SUSSUMO
Lendas e mistérios num dos trechos mais espetaculares do Caminho de Santiago

Continuamos nossa peregrinação de bicicleta pelo Caminho de Santiago de Compostela. Nesta etapa percorremos um dos trechos mais espetaculares, repleto de lendas e mistérios.

 

Estella a Viana

Neste segundo dia de peregrinação pelo Caminho de Santiago de Compostela, deixamos Estella e seguimos até Viana num trecho de 45 km nessa terra de magia e encantamento. Pouco mais de 2 km e nos deparamos com a primeira surpresa do dia, a fonte de vinho. Aymeric Picaud no Codex Calixtinus (séc. XII,  o primeiro guia do Caminho de Santiago),  em seu capítulo III disse: “Tierra Estella, tierra de buen pan y óptimo Vino”. Para marcar a tradição, numa das paredes voltadas para o Caminho de Santiago a Bodegas Irache construiu uma fonte onde os caminhantes podem matar sua sede com água ou vinho, esta fonte se tornou um dos marcos do caminho.

Bodegas Irache

 

Bodegas Irache uma fonte de vinho no Caminho de Santiago

Devidamente abastecidos, seguimos nossa viagem passando por alguns “pueblos” e logo estamos encarando uma subida que nos obriga a empurrar as bicicletas num trecho de aproximadamente 2 km até chegarmos ao alto de um morro onde uma fonte medieval marca uma área de descanso dos peregrinos e de onde se tem uma bela vista, de um lado do Castello de Monjardin, e do outro da cidade de Villamayor de Monjardin.

Fonte medieval em Villamayor de MonjardimFonte medieval nas proximidades de Villamayor de Monjardin

Encerramos nosso dia em Viana, um pequeno município com 4.000 habitantes. O albergue paroquial estava lotado. Em geral os peregrinos a pé caminham pela manhã saindo por volta de 5 ou 6 horas da manhã e encerram a caminhada por volta de 12 ou 13 horas, horário de abertura dos albergues municipais ou paroquiais, que logo ficam lotados. Em algumas cidades pelas quais passamos, viam-se filas de peregrinos aguardando a abertura dos albergues.

Iglesia Assunción de Santa Maria na Plaza los Fueros em VianaIglesia Assunción de Santa Maria na Plaza los Fueros em Viana

 Chegamos em Viana por volta de 17 horas, teríamos a opção de seguir até a próxima cidade, sem qualquer garantia de encontrarmos vaga. Resolvemos então recorrer a oficina de apoio a turistas e peregrinos que fica na Plaza los Fueros no prédio da prefeitura, onde muito gentilmente uma funcionária se dispôs a ligar para alguns albergues privados, a maioria com ocupação completa, numa conversa mais demorada ela conseguiu as vagas no Albergue Izar, para onde seguimos e finalmente pudemos nos acomodar. O saco de dormir estendido sobre a cama é sinal de que aquele lugar está reservado, as camas de baixo são as primeiras a serem ocupadas. O custo do albergue foi de 10 Euros por pessoa em quarto coletivo com  4 beliches, sòmente a cama, os demais itens como café da manhã, sabonete, toalha etc se solicitados tem um custo adicional.

 

Viana a Najera

Este trecho marca a divisa entre as províncias de Navarra e La Rioja, região que é a principal produtora de vinho da Espanha, e uma das cinco áreas vinícolas mais importantes do mundo. As belas paisagens são marcadas pelos parreirais à beira do Caminho.

De Viana até Logroño a primeira cidade do trajeto, são aproximadamente 10 kms, é um longo trecho sem ponto de apoio, portanto abasteça-se principalmente de água, a distância total a ser percorrida no dia será de 45 km até Najera.

Logroño com uma população girando em torno de 150.000 habitantes é uma das maiores cidades no Caminho de Santiago. Repleta de monumentos históricos, aqui está localizada a Universidade de La Rioja.

Ponte de Pedra, construída em 1884, marca a entrada dos peregrinos e é um dos símbolos de LogroñoPonte de Pedra, construída em 1884, marca a entrada dos peregrinos e é um dos símbolos de Logroño

A história da cidade está intimamente ligada ao Caminho de Santiago, pois foi a partir da ordem do Rei Sancho de Navarra no século XI,  de incluir Logroño na rota dos peregrinos até Santiago de Compostela que a cidade se fortaleceu vindo a tornar-se uma das mais importantes da Espanha. Talvez por isso, sentimos um respeito muito grande de seu povo ao identificarem um peregrinos, invariavelmente os cidadãos abanam as mãos em saudação.

 

“Pinchos” e vinho na festa da Vindima em Logroño

Embora tenhamos chegado em Logroño ainda pela manhã, resolvemos estender nossa parada até por volta do horário de almoço, pois a Plaza del Mercado estava em festa saudando a colheita da uva. As barracas iniciavam os preparativos  e as pessoas começavam a chegar, aproveitamos para fazer a refeição do dia, pois seria a única oportunidade de provarmos os “pinchos” e uma pequena garrafa de vinho por 2,50 Euros.

Após muitos “pinchos” e vinhos, deixamos Logroño por um caminho bastante agradável passando por parques e trilhas muito utilizadas pelos moradores locais para caminhada.

Parque de la Grajera na saída de LogroñoParque de la Grajera na saída de Logroño

Seguimos nosso Caminho até Najera destino final da jornada do dia,  com parada em Navarrete para um lanche rápido.

Antes de chegarmos ao hotel, passamos por uma oficina para consertar o câmbio de uma das bicicletas, com a ajuda de um morador local que gentilmente nos guiou até o endereço, porém a loja não dispunha da peça quebrada e o conserto ficou para nossa próxima parada em Burgos. Uma das vantagens que percebemos em alugar uma bicicleta ao invés de levar, é que o aluguel inclui além de ferramentas, pneus e câmaras reserva, uma revista com mapas, descrições do caminho, endereços de hotéis e oficinas credenciadas ao longo do caminho.

Como já havíamos feito a reserva do hotel em Nájera no dia anterior, dessa vez não tivemos  surpresa. Ficamos no Hostal Hispano a um custo de 25 Euros/pessoa em quarto privativo com banheiro, roupa de cama e banho e café da manhã incluso.

Monasterio Santa Maria la Real na Plaza de Navarra em NajeraMonasterio Santa Maria la Real na Plaza de Navarra em Najera

O Monasterio Santa Marial la Real foi construído no local onde Don Garcia de Nájera, então governador da região teria encontrado uma imagem de Nossa Senhora ao perseguir um falcão durante uma caçada.

Nájera possui em torno de 8.000 habitantes e foi uma cidade que desempenhou um importante papel na vida política e econômica da Espanha. Palco de acontecimentos marcantes da história, capital da província de La Rioja e sede da corte de Navarra, passou a fazer parte do Caminho de Santiago a partir do século XI, por iniciativa de Sancho III, rei de Navarra.

Seu povo é conhecido pela acolhida calorosa que dispensam aos peregrinos. Pudemos comprovar isso quando saímos à noite a procura de um restaurante, fomos identificados como peregrinos e vários moradores fizeram questão de nos acompanhar até a Paroquia de Santa Cruz do Sec XVII, onde tivemos a oportunidade de participar do ritual do sino, uma tradição histórica, durante uma missa  de benção aos peregrinos.

 

Najera a Viloria de Rioja

 Deixamos Najera com destino a Viloria de Rioja num trajeto relativamente plano. A distância planejada para esse dia foi curta, pois tinhamos uma reserva no Refúgio Acacio & Orietta em Viloria de Rioja a aproximadamente  40 km, e acabamos saindo mais tarde por volta das 9h30.

NajeraNossos amigos belgas, um com 83 anos e seu filho com 66 numa jornada de 3.000 km

 O detalhe é que nesse dia esqueci de devolver a chave do hostel e só percebi meia hora mais tarde já na estrada. A sorte é que uma peregrina dinamarquesa que fazia o caminho inverso se dispôs a devolver já que ela passaria pela cidade.

Passamos pelos povoados de Azofra e Ciruena até chegar em Santo Domingo de la Calzada,  onde almoçamos na bela Plaza de Espanha.

Catedral na Plaza de Espanha em Santo Domingo de la CalzadaCatedral na Plaza de Espanha em Santo Domingo de la Calzada

Domingo Garcia, o Santo Domingo que dá nome à cidade, foi um dos grandes desbravadores do Caminho de Santiago, junto com San Juan de Ortega dedicou-se a manutenção e construção de pontes e abertura de estradas por toda essa região, sua vida foi dedicada a ajudar os peregrinos do Caminho de Santiago, além de construir uma ponte sobre o rio Oja, fez um hospital para atender aos peregrinos, um templo religioso onde oferecia alivio espiritual e restaurou antigas calçadas romanas daí o nome de la Calzada.

Santo Domingo de la CalzadaA lenda do galo assado que cantou, se tornou um dos símbolos de Santo Domingo de la Calzada

Uma lenda curiosa marca a passagem dos peregrinos por esta cidade.

Dizem que um belo mancebo alemão de nome Hugonell fazia a peregrinação com seus pais, e se hospedou em Santo Domingo de la Calzada, onde conheceu uma jovem que logo encantou-se pelo rapaz.

Não sendo correspondida, escondeu uma taça de prata em sua mochila, de forma vingativa. Acusado, o jovem foi preso e condenado à forca.

Quando seus pais foram ao pátio recolher o corpo, não o encontraram e teriam sido alertados por uma voz  afirmando que seu filho continuava vivo e preso. Imediatamente procuraram o juiz que o havia condenado para solicitar a soltura do rapaz.

O juiz que estava almoçando, acreditando na morte do jovem teria afirmado sarcasticamente que só o soltaria se aquele galo assado servido sobre sua mesa cantasse. Subitamente então, o galo teria se levantado e cantado diante do incrédulo magistrado.

E a partir daí então, foi colocado dentro da Catedral de Santo Domingo um galinheiro com um galo e uma galinha simbolizando o milagre, os peregrinos acreditam que se durante sua visita o galo cantar, a sorte o acompanhará até o final de sua jornada.

Rececilla del CaminoVista do Caminho entre Santo Domingo de La Calzada e Rececilla del Camino

Saimos de Santo Domingo seguindo por um caminho que nos conduz a um longo trecho de uma paisagem árida porém bela, passando pela “Cruz de los Valientes” cruzando com vários peregrinos entre os quais alguns brasileiros,  logo avistamos ao longe e no alto Redecilla del Camino.

Redecilla del Camino

Um barman paraguaio e um carimbo legitimo na credencial

Uma parada rápida para um lanche e mais um carimbo no passaporte, curiosamente o barman da lanchonete era um paraguaio, porém o “sello” era legítimo.

Mais alguns minutos e chegamos a Viloria de Rioja, onde encerramos a jornada do dia.

Viloria é um pequeno município com apenas 50 habitantes, e é onde está localizado o Refúgio Acacio & Orietta, administrado por um casal de brasileiro e italiana, apadrinhados por Paulo Coelho,  e que prestam um serviço de apoio aos peregrinos de todas as nacionalidades mas especialmente de brasileiros associados ao AAPCSC, foi onde recebemos uma das melhores acolhidas no Caminho, o jantar com feijão preto incluído no cardápio em nossa “homenagem”, foi uma das boas surpresas da estadia.

Uma regra interessante para quem não quer madrugar, é que neste Refúgio a saída só é permitida após as 7h00, então você não será despertado pelo barulho e pela luz das lanternas dos peregrinos madrugadores e pode aproveitar para dormir um pouco mais.

Refugio Acacio & Orietta em Villoria de RiojaRefugio Acacio & Orietta em Villoria de Rioja

 

Viloria de Rioja a Burgos

Por volta das 7h30 deixamos o Refúgio para mais um dia no Caminho de Santiago de Compostela. Nosso destino de hoje será a cidade de Burgos, um trajeto de 55 km e também relativamente plano.

Passamos por Villamayor del Rio e logo chegamos a Belorado onde  aproveitamos a parada para um lanche rápido na bela Plaza Mayor.

BeloradoPlaza Mayor em Belorado

Seguimos nosso Caminho, passando por muitos vilarejos que iam surgindo a cada 2 ou 3 kms percorridos, até chegarmos a San Juan de Ortega, uma pequena comunidade que tem uma população média de 18 habitantes ao longo do ano, palco de um fenômeno extraordinário num dos episódios  mágicos do Caminho de Santiago.

San Juan de OrtegaIgreja românica em San Juan de Ortega

No Santuário de San Juan Ortega, em 23 de Setembro e 21 de Março às 17 hs, exatamente nove meses antes do Natal, acontece um fenômeno conhecido como o “milagre da luz”, onde um raio de sol ilumina um capitel românico do século XII, como se o próprio Espírito Santo em forma de raio de luz, estivesse enviando a Maria o anúncio de que seria mãe do Filho de Deus.

“milagre da luz” em San Juan OrtegaCapitel românico do século XII e o “milagre da luz”

Como imaginar que esta igreja românica tenha sido construída pensando neste fenômeno, e que os conhecimentos de astronomia da época fossem capazes de calcular exatamente o ponto onde  a luz do equinócio atingiria naquele exato momento passando por uma pequena janela. E teria sido um mero acaso a ocorrência do fenômento neste local, com sua atmosfera mágica e silenciosa em pleno Caminho de Santiago e também que passássemos por ali exatamente nesse dia?

Deixamos San Juan de Ortega e seguimos até nosso destino passando por muitos vilarejos ao longo do Caminho, logo atingimos a zona urbana de Burgos, uma das maiores cidades do Caminho com aproximadamente 180.000 habitantes.

Trecho do Caminho de Santiago entre San Juan Ortega e Burgos

Reservamos um tempo maior para conhecer a cidade e também aproveitamos para levar as bicicletas para uma manutenção, troca de pneus, ajustes no cambio, lubrificação, etc. O único gasto que tivemos foi de 10 Euros da lavagem de uma das bikes que estava muito suja, o restante ficou por conta da empresa de locação.

Plaza Mayor no centro histórico de BurgosPlaza Mayor no centro histórico de Burgos

No centro histórico de Burgos estão alguns dos mais belos monumentos representativos da arquitetura gótica da Espanha, onde se destaca a bela Catedral de Burgos, um Patrimônio da Humanidade, construída entre os séculos XIII e XVI.

Catedral de BurgosCatedral de Burgos, aqui está a tumba com os restos mortais de El Cid, lendário comandante e herói da reconquista

Até aqui foram quase 200 kms percorridos num ritmo bem tranquilo, pois um dos objetivos dessa viagem era realmente conhecer o Caminho e todas suas peculiaridades e atrações.

Nosso planejamento de fazer em torno de 40 kms por dia superestimou o grau de dificuldade, pois é possível percorrer distancias maiores, porém sem o exagero de alguns peregrinos de bicicleta que percorriam trechos de até 100 kms num dia, que desaconselhamos totalmente, a menos que você esteja testando os seus limites e vá sem qualquer compromisso com o espírito do Caminho.

Considerando um indivíduo não sedentário, o grau de dificuldade de se fazer o Caminho de  bicicleta é relativamente baixo se comparado com o Caminho feito a pé, infinitamente mais desgastante. Em muitos locais encontramos peregrinos sofrendo com problemas nos joelhos e principalmente bolhas nos pés, mas nada que fosse capaz de apagar o sorriso e o ar de satisfação estampado em seus rostos, que parecem não se importar com o peso da mochila, o cansaço, a fome e a sede.

Todos parecem compreender que no Caminho não se está só, sua beleza e  magia parecem criar uma conexão com o universo e a cada metro ou quilometro percorrido novas descobertas e muitas surpresas se descortinam à sua frente.

É o que veremos na próxima matéria em que passamos por cenários deslumbrantes, palcos de acontecimentos históricos, lendas e mistérios, continuando esta jornada mágica e inesquecível. Até lá!

Veja mais no vídeo do Caminho de Santiago de bike: