PERFIL
Julinho Mendes, caiçara mesmo

Júlio César Mendes é um caiçara de Ubatuba muito ativo na área cultural. Participa sempre de blocos e do Festival de Marchinhas no carnaval, do concurso literário da cidade, e ao longo de seus 55 anos vem deixando um belo legado para a cultura caiçara.

Julinho acredita ter puxado o lado artístico do avô materno, Lindolfo (o “Prega-Fogo”). “Meu avô era bastante folclórico, musical, gostava da arte, da cultura, então eu puxei o lado dele”, observa.

O caiçara tem diversos textos publicados em revistas, jornais e sites, um livro de contos e crônicas, quatro CDs, inúmeras composições de músicas de raiz, samba-enredo e marchinhas. Atualmente coordena o grupo músico-cultural Cantamar. Também é artesão e professor de matemática.

Com seu “Balaio caiçara” (foto na galeria no final da página), projeto autoral voluntário, Julinho faz palestras em escolas com contação de causos e músicas a respeito da cultura caiçara. No balaio tem canoa, bananas de diferentes tipos, dragão da Sununga, capelinha, sereia, peixe, caranguejo e muito mais. Tudo feito por ele artesanalmente.

No balaio tem até o boi de conchas, lenda compilada por Julinho sobre um boi que sonhava em conhecer o mar, até que no dia em que ia ser abatido fugiu da morte rumo ao oceano, onde desapareceu. Segundo a lenda, o boi teria sido visto anos depois coberto de conchas saindo do mar, atraído pelo som de uma viola.

Não é simples fazer nascer uma lenda como essa, com uma narrativa tão rica e envolvente (melhor contada, é claro, quando interpretada na íntegra, com todos os detalhes, pelo próprio autor).

A história de como surgiu a lenda do boi de conchas é curiosa e faz Julinho lembrar em tom saudoso dos tempos do programa “Ranchinho Caiçara” da Rádio Costa Azul, que o incentivou a produzir textos para ler no ar. Muito do que era lido no rádio era fruto de conversas com a mãe e o pai, que contavam sobre o passado da cidade. Depois de um tempo as histórias foram ficando escassas e ele passou a inventar “causos”. Foi assim que nasceu o boi de conchas, que mistura realidade, causos com personagens que realmente existiram e a fantasia de Julinho para arrematar o enredo.

TRANSFORMAÇÕES CULTURAIS

Julinho conta que viu “a transição do antigo para o novo” acontecer em Ubatuba. “Presenciei a congada, folia de reis, folia do divino. Isso eu presenciei, vi. E ao mesmo tempo, nesse meu período de vida, eu vi extinguir aquela coisa natural que era antigamente”, explica. “Ainda existe, né, mas não tão intensamente como era antigamente que, como eu falo, era natural, era espontâneo. Hoje temos a preocupação de manter vivo”, afirma Julinho, que leva a sério essa missão.

DISCOS

Caiçarando
Caiçarando foi um CD produzido em 2007 por Wilhan França. São dez músicas de Julinho e uma com França, todas no estilo caiçara.

Boi de conchas
Gravado em 2008, “O auto do Boi de Conchas” é a versão musicada da lenda sobre o boi que sonhava em ver o mar. O boi de conchas é o mais jovem de uma rica tradição de brincadeiras de boizinho presentes em Ubatuba desde os anos 30.

Bonde Marchinha

O CD de marchinhas lançado em 2015 tem faixas de diversos autores, sendo duas de Julinho (Bonde Marchinha, Lambe Lambe) e outras duas dele em parceria com Claudia Gil (Catalepsia, Matando a cobra e mostrando o pau).

Cantamar

Dá vontade de ficar descalço e dan-çar a beira mar quando ouvimos Cantamar, “Um canto contemporâ-neo da cultura caiçara”. Lançado em 2016, o CD conta com as músicas de Julinho, além de “Higino” (de Domingos dos Santos musicada por Julinho) e “Xiba e Congada” (de Washington Garcez).

Folia de Reis

Disco mais recente da Companhia de Reis Cantamar, lançado em dezembro, “Folia de Reis – Nos passos dos Reis Magos”, tem a intenção de manter a cultura popular folclórica da Folia de Reis.

LIVRO

Escrafunchando o Lagamá – Causos de um caiçara
Julinho lançou seu primeiro livro em 2015, reunindo contos e crônicas que já haviam sido publicados, mas estavam espalhados por aí. Na orelha do livro, ele antecipa o que o leitor encontrará nos 22 textos reunidos nessas agradáveis páginas: “Viajaremos no meu passado, passado de meus pais e avós, passado do povo caiçara, passado rico com brincadeiras puras, com natureza exuberante e farta – enfim, passado de uma Ubatuba maravilhosa que vagueia na memória do tempo”. O livro é com certeza uma obra histórica para o município de Ubatuba, bem como os demais trabalhos deste artista múltiplo.