MEMÓRIA
Historiador búlgaro visita ilha Anchieta para pesquisa sobre imigrantes

O historiador e professor Nicolai Tchervencov, doutor em História pela Universidade de Moscou (1982) e, posteriormente, doutor em Ciências Históricas (2003), viajou da Moldávia, no leste europeu, ao Brasil para pesquisar histórias da imigração búlgara e gagaúza. Ele veio acompanhado de sua esposa Maria Thervencova, da tradutora Maya Daskalova e do neto de Maya, Vasil Lachezarov Dimitrov, de 11 anos de idade.

O professor incluiu a cidade de Ubatuba no roteiro dessa investigação porque a ilha Anchieta, localizada na região sul do município, é um importante espaço de memória da história desses imigrantes aqui no Brasil.

O escritor e juiz de direito aposentado, doutor Jorge Cocicov, morador de Ubatuba, escreveu diversos livros relatando a história dessa imigração e ressaltando o trágico episódio ocorrido na Ilha Anchieta em 1926.

“História essa dessa imigração da qual faz parte a história de Ubatuba, diante da compulsória permanência de 2 mil imigrantes na ilha dos Porcos, hoje Ilha Anchieta. Essa presença, em caráter prisional, deveu-se ao fato deles terem se negado a irem para as fazendas de café, no interior paulista, diante da notícia que receberam sobre o tratamento escravo a que outros imigrantes estavam sendo submetidos. Eles ensaiaram uma revolta, dentro da hospedaria dos imigrantes, em São Paulo, e como houve consenso foi acionada a força pública do Estado (atual Polícia Militar) que, em meio a um enorme tumulto, forçou-os a embarcarem em vagões de trem fechados, rumo ao porto de Santos. Lá, em batelões, foram transportados para o presídio da Ilha Anchieta. Nos sofridos cem dias em que lá estiveram, sem qualquer tipo de assistencia médica ou farmacêutica, sem qualquer orientação e sem conhecerem o idioma português, viram suas crianças e parentes morrerem. Foram 151 mortes, na sua maioria crianças”, explica o pesquisador Cocicov, que acompanhou a comitiva vinda da Moldávia.

Visita à ilha

A ida até a ilha Anchieta ocorreu no dia 12 de junho e contou com apoio e segurança da Polícia Ambiental. Acompanharam a visita os monitores José Walther Cardoso e Iara Ribeiro Dias, além do doutor Cocicov e o coronel da PM reformado Gilberto Franco Sacilotti.

A comitiva foi recebida na ilha com uma faixa de boas-vindas. Após serem informados sobre características e regras do parque estadual da ilha Anchieta, os visitantes foram conduzidos à capela, onde foram lidos versículos bíblicos. Sacilotti pediu perdão aos búlgaros pelo ocorrido no passado.

Depois, todos se dirigiram ao centro de visitantes do Parque, às ruínas do presídio e ao antigo cemitério da ilha dos porcos, onde jazem os imigrantes mortos em 1926. O cemitério tem cruzes recém colocadas com os nomes de alguns falecidos em português e também o sobrenome deles no alfabeto cirílico, adotado pelos idiomas eslavos. Foi rezada uma prece coletiva, o “pai nosso”, em português e em búlgaro (“otche nach”).

Em entrevista ao InforMar Ubatuba na manhã seguinte à visita à ilha, o dr. Tchervencov explicou o contexto político em que se deu a migração dos búlgaros e gagaúzos da região da Bessarábia (que pega parte dos territórios da atual Moldávia e da Ucrânia). “Foi um processo muito complicado na época. Foi resultado da situação econômica difícil na Bessarábia naquela época, que estava ligada principalmente com a situação do país na 1ª Guerra Mundial. Por outro lado, o Brasil necessitava de mão-de-obra naquela época, início do século XX. Isso aconteceu após a primeira guerra mundial, quando a Bessarábia foi anexada pela Romênia e a população da Bessarábia ainda não estava se sentindo bem fazendo parte do estado da Romênia porque antes pertencia ao império russo e tinha uma influencia muito grande da Rússia. O governo romeno perseguia os colonos lá, para ficar com o estado só para os romenos. O objetivo foi se livrar dos colonos. No início o governo romeno estava de acordo para permitir a imigração a todos que quisessem. Mas depois mudou sua decisão permitindo apenas russos, ucranianos, búlgaros, gagauzos e judeus a saírem do país”, disse Tchervencov.

OUÇA A ENTREVISTA DO INFORMAR UBATUBA COM O DR. TCHERVENCOV: