YWYTY GUAÇU
A história cinematográfica da aldeia Renascer

A atual Ubatuba já foi um dia toda habitada pelos Tupinambá (povo do tronco linguístico-cultural Tupi-guarani). Até hoje, hábitos e palavras indígenas estão presentes do Camburi à Tabatinga.

Atualmente, há apenas duas aldeias no município. A Aldeia Boa Vista, no sertão do Prumirim, e a Aldeia Renascer Ywyty Guaçu, no Corcovado. A primeira é formada por indígenas Guarani Mbyá, a outra por Guarani e remanescentes de grupos Tupi-Guarani que no século passado reocuparam regiões que, até a chegada dos europeus no século XVI, eram território indígena.

A Aldeia Boa Vista tem área delimitada de 5.420 ha reconhecidos pela Funai (Fundação Nacional do Índio) como terra tradicionalmente ocupada. A Aldeia Renascer Ywyty Guaçu aguarda estudos de natureza etno-histórica, antropológica e ambiental necessários à Fundamentação Antropológica, iniciados pela Funai em 2010.

Apesar da morosidade do processo administrativo de regularização da área, diversos avanços contribuem com a permanência e expansão da Renascer. A Escola Estadual Indígena Renascer (EEI “Penha Mitãngwe Nimboea”), que funciona desde 2016, foi uma das conquistas da comunidade, que passou a ter acesso à educação infantil, fundamental I e II e EJA Fundamental II dentro da aldeia, com professores indígenas e ensino bilíngue. Os índios também contam com atendimento de saúde e carro para eventuais deslocamentos.

Diariamente fazem seus rituais na casa de reza. Cultivam palmito pupunha, mandioca, batata doce, café e frutas. Também fazem artesanato tradicional, como cesta, arco e flecha, machadinho, zarabatana, peneira, rede e outras peças.

O palmito pupunha é vendido no Mercado de Peixe e o artesanato é comercializado ao lado da feira da Av. Iperoig, próxima ao Cruzeiro, e na Praia Grande, próximo às barraquinhas de lanche.

“A gente pode ter tudo na vida, mas nossa cultura nós temos que fortalecer”, defende o cacique Awá, 62 anos. “Temos as ocas para receber, temos a nossa casa de reza onde a gente faz a nossa cerimônia, onde a gente vai buscar a cura para os nossos curumim, onde a gente se concentra, onde vai buscar o nome para a criança também”.

Segundo ele, vivem na aldeia hoje 110 pessoas, de 26 famílias. “Renascer, nós estamos fazendo brotar novamente. Porque essas etnias que estavam desaldeadas estão renascendo novamente, eles estão dentro de uma aldeia, preservando a cultura”, diz.

O cacique Awá conta que o grupo que iniciou a reocupação do território tinha aproximadamente 15 pessoas, de 5 famílias.

 

Foto: Wesley Alves / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Wesley Alves / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Wesley Alves / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Wesley Alves / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Wesley Alves / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Wesley Alves / Caiçara Criativo (22/03/2017)


HISTÓRIA DE CINEMA

O nome Ywyty Guaçu significa ‘‘montanha grande’’. A presença do Corcovado visto da aldeia é mesmo grandiosa, tornando o lugar ainda mais cinematográfico. E, de fato, o local foi utilizado como cenário para gravações do filme “Hans Staden” na década de 90, quando foram construídas ocas cenográficas no estilo Tupinambá.

 

Foto: Renata Takahashi / InforMar Ubatuba

 

O filme lançado em 1999 conta a história da passagem pelo Brasil do mercenário Hans Staden, que em 1557 publicou um livro relatando sua experiência como prisioneiro dos Tupinambás por nove meses na aldeia de Ubatuba (Uwattibi, segundo o texto original do alemão) que ficava entre o Rio de Janeiro e Bertioga. Na famosa obra “Duas Viagens ao Brasil”, Staden narra como escapou de ser devorado num ritual antropofágico da tribo que o capturou.

Quando o filme foi feito, alguns poucos índios (entre eles Awá) foram contratados como figurantes no longa-metragem.

 

 

Segundo o cacique Awá, dois anos depois do fim das gravações, ele mais um grupo de índios voltaram ao local, que tinha aspecto de abandonado. “Chegamos aqui estava tudo sujo, as ocas quase caindo, aí reformamos, e demos continuação na cultura. Entrou Funai, entrou Ministério Público, veio mais comunidade”, recorda o cacique.

Foi assim que a aldeia cenográfica virou aldeia de verdade. “O próprio Hans Staden já fala que isso daqui era tudo ocupado pelos índios, os tupinambás, né, você pode pegar o roteiro do filme, ou senão pegar o histórico daqui de Ubatuba”, diz Awá.

 

Foto: Thais Taniguti / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Thais Taniguti / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Thais Taniguti / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Thais Taniguti / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Thais Taniguti / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

EEI Penha Mintãngwe Nimboea. Foto: Thais Taniguti / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

EEI Penha Mintãngwe Nimboea. Foto: Thais Taniguti / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Thais Taniguti / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

Foto: Thais Taniguti / Caiçara Criativo (22/03/2017)

 

A Prefeitura de Ubatuba, de acordo com informações publicadas em seu site, reuniu-se no último dia 21 de março com lideranças da comunidade da Aldeia Renascer e técnicos da Fundação Nacional do Índio (Funai), para ouvir suas demandas. Entre os pontos conversados, segundo o texto da PMU, estão melhorias no posto de saúde, bem como na estrada e na iluminação dentro da aldeia, além da construção do Centro de Formação Agroecológico, a ser utilizado como recepção, espaço de reuniões e dormitório para alunos e pesquisadores.

No blog da aldeia, o post referente a essa reunião com a Prefeitura menciona que foram tratados “assuntos referentes a Saúde indígena e a construção do Centro Cultural que será construído na aldeia Renascer (Ywyty Guaçu), com o apoio da Funai (Fundação Nacional do Índio)”.

MOBILIZAÇÃO EM BRASÍLIA

O cacique Awá estará em Brasília entre 24 e 28 de abril, com povos e organizações indígenas de todas as regiões do Brasil, participando do Acampamento Terra Livre. Ele pretende entregar em mãos ao presidente da Funai o pedido de demarcação da Terra Indígena Renascer Ywyty Guaçu.

Segundo a convocatória da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, o objetivo do Acampamento é “se posicionar sobre a violação dos direitos constitucionais e originários dos povos indígenas e as políticas anti-indígenas do Estado brasileiro”.

O jornal InforMar Ubatuba solicitou à Funai informações sobre o andamento do processo de demarcação da Renascer, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.