POLÍTICA
Filho de Bolsonaro visita Ubatuba entre gritos de ‘Mito’ e ‘Fascista’

Iniciado com quase duas horas de atraso, um evento com a presença do deputado Eduardo Bolsonaro (PSC) atraiu grupos de apoiadores e manifestantes contrários às ideias de extrema direita do clã. Na tribuna, Eduardo sentou-se ao lado de dois colegas de partido, o vereador e médico da Santa Casa de Ubatuba, Ricardo Cortes, anunciado pelo mestre de cerimônias como “Dr. André”, e uma candidata a vereadora derrotada nas últimas eleições em São José dos Campos.

Entre os apoiadores, muitos vestiam camisetas com o rosto de Jair Bolsonaro e defendiam bandeiras como a militarização das escolas e a liberação do porte de armas. Segundo empresário da construção civil, Carlos Roberto, que afirma defender a economia de mercado, sua presença ali era para manifestar sua insatisfação com os rumos políticos do Brasil nos últimos 14 anos. Outro apoiador, um policial reformado que não quis se identificar, disse apoiar Bolsonaro por acreditar que ele vai aumentar o salário da categoria.

Já entre os manifestantes contrários, era possível distinguir diversos grupos como professores contrários à censura e militarização de seus locais de trabalho, trabalhadores do porto de São Sebastião, grupos LGBT, seguidores de religião de matriz africana, quilombolas, membros do PSOL. Eles carregavam faixas contra a Reforma da Previdência, o machismo, o racismo, o preconceito contra indígenas e quilombolas, a violência contra homossexuais e a militarização da sociedade.

Entre os gritos de “Mito”, de um lado, e de “Fascista”, do outro, Eduardo esperou diversos aliados palestrarem para fazer uso da palavra só depois das 22h30. Vaias e aplausos intensos polarizaram a fala da vereadora suplente de São José, Letícia Soares, que apresentou um slide com uma teoria segundo a qual as revistas Veja e Isto É estariam conspirando com professores de escolas infantis para implantar no Brasil um regime como o da Coréia do Norte.

Quando finalmente Bolsonaro tomou a palavra, boa parte do público, sobretudo seus opositores, já havia ido embora. Logo no início de sua fala, o deputado evocou uma suposta ligação com Ubatuba quando conheceu um atleta da cidade durante uma viagem: “Dividi quarto lá no Hawaí com Wiggolly Dantas, que por acaso é negro, mas, graças a Deus não é um desses semi-doentes mentais que ficam aí sem argumentos gritanto ‘fascista, sexista, misógeno, xenófobo!”, afirmou. “Se ele fosse um mongoloide desses, não teria nascido uma amizade”, continuou. Segundo o deputado, o surfista é quem teria lhe contado sobre problemas de Ubatuba como as carências da Santa Casa. Em outro momento, se referindo ao discurso de defensores dos Direitos Humanos, o deputado disse que “se o Wiggolly Dantas tivesse caído nesse papinho, ele tava aqui hoje, batendo palminha, apitando, depois reclamando do Estado, fumando maconha e recarregando Iphone, como eu vi o garotão lá“.

As pessoas chamadas de “semi-doentes mentais” e “mongolóides”, no caso, eram diversos manifestantes negros ali presentes, incluindo jovens moradores de quilombos de Ubatuba que, no início do evento, erguiam cartazes em protesto contra declarações do pai de Eduardo, o deputado Jair Bolsonaro (PSC), que no mês passado foi condenado pela Justiça ao pagamento de indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 50 mil. De acordo com o Ministério Público Federal, o deputado carioca “ofendeu e depreciou a população negra e os indivíduos pertencentes às comunidades quilombolas, bem como incitou a discriminação contra esses povos” em palestra realizada no mês de abril no Clube Hebraica quando afirmou que membros de uma comunidade quilombola “não fazem nada”, não servindo “nem para procriador”.

Anteriormente, num momento em que o evento estava suspenso, nossa reportagem, que estava devidamente identificada como imprensa, chegou a perguntar ao deputado quais seriam suas propostas paras as comunidades tradicionais de Ubatuba, indígenas e quilombolas. Ele, no entanto, não respondeu aos questionamentos e logo um grupo de mais de quatro seguranças particulares arrastaram o repórter para longe. (VEJA VÍDEO NO INÍCIO DO POST)

Ao defender a liberação do porte de armas de fogo, o deputado afirmou que atualmente seria muito difícil comprar armas devido à burocracia, que exige vários documentos como o certificado de antecedentes criminais, prova de manuseio, exame psicológico, além de uma entrevista com um delegado da Polícia Federal diante de quem a pessoa interessada deve demonstrar efetiva necessidade de ter uma arma. Bolsonaro reclamou ainda das restrições à publicidade que a lei impões aos fabricantes de armas. “Além disso tudo, é muito difícil você encontrar uma propaganda (de arma). Tem muita restrição. Não pode na televisão, não pode ser tal horário, não pode ser assim, não pode ser assado, não pode ter letreiro, não pode ter outdoor, não pode isso, não pode aquilo. É cheio de penduricalho, burocracia, exatamente para te desestimular a ter uma arma de fogo”.

A professora da rede pública municipal, Keila Kumakura de Souza, que compareceu para protestar, discorda da ideologia armamentista: “Qual é o benefício que a sociedade vai ter se numa briga de trânsito as duas pessoas estiverem armadas? E a mulher acostumada a levar porrada agora vai levar tiros”, argumentou. “Nós sabemos muito bem o que acontece quando as pessoas se esquentam numa briga de trânsito ou entre vizinhos, por exemplo. Eu tenho uma amiga professora aqui em Ubatuba que a mãe dela foi morta numa briga entre vizinhos com arma de fogo. E essa pessoa está solta!”, relata.

O trabalhador portuário de São Sebastião, Rodolfo Martins, também discorda do extremismo de direita de Bolsonaro, a quem classifica como um fascista. “Bolsonaro defende privatizações para entregar o capital nacional ao estrangeiro, mas o que mais preocupa os movimentos não é isso. O que preocupa mais é esse apelo moral. Cria-se um bode expiatório, um inimigo imaginário, como se os problemas do Brasil fossem os homosexuais, fossem as mulheres feministas, fossem os professores, como se eles doutrinassem os alunos”. Na avaliação de Rodolfo, essas bandeiras, além de distrair e tirar o foco dos problemas, seriam uma tendência muito perigosa por isulflar o ódio entre diferentes segmentos da sociedade.

A cidade de Ubatuba tem três aldeias indígenas (Boa Vista, Renascer e Rio Bonito) além diversas comunidades quilombolas de um extremo a outro do município, entre elas a da Caçandoca, do Sertão de Itamambuca, da Fazenda e a do Camburi, que vivem sob constante pressão por parte de grileiros e construtoras interessados em suas terras.