HISTÓRIA
Familiares relembram prisão de 172 japoneses na Ilha Anchieta após a Segunda Guerra

Entre 1946 e 1948, 172 imigrantes japoneses foram presos na Ilha Anchieta em Ubatuba. Neste sábado, 23 de setembro, um evento na ilha homenageou familiares e amigos desses prisioneiros, que não eram presos comuns. Apesar de haver alguns envolvidos em casos de assassinatos políticos dentro do contexto do conflito interno da colônia japonesa no Brasil entre os chamados “vitoristas” e “derrotistas” (pós segunda guerra mundial), a maioria dos 172 presos era inocente.

Familiares procuram nome de parentes no banner que tem a lista dos 172 presos.

O dia 23 de setembro foi recentemente instituído no calendário da cidade como “Dia em homenagem aos imigrantes japoneses presos na Ilha Anchieta”, um dia para reconhecer o erro cometido no passado por agentes do próprio Estado e homenagear aqueles que foram injustiçados. Além das prisões, durante e após a segunda guerra, houve casos de tortura e perseguição aos imigrantes japoneses, uma vez que o Brasil se aliou ao bloco adversário do Japão no conflito militar global.

Apesar do sofrimento, diversos relatos apontam que a passagem dos japoneses pela ilha foi marcada por melhorias no funcionamento do presídio. Por conta da boa disciplina e de seus conhecimentos, eles teriam ganhado a confiança dos dirigentes da prisão e passado a ter mais liberdade que os demais presos da ilha. “Eles se organizaram em habilidades. Lavrador era o que não faltava. Tinha alfaiate, dois ‘engenheiros mecânicos’ e uma série de profissões para compensar carências da penitenciária”, afirmou Mario Jun Okuhara, que conduziu a cerimônia no centro de visitantes na ilha neste sábado.

Melisa Sakamoto, uma das responsáveis pela realização do evento.

Sabe-se que os japoneses pescavam, fizeram campeonato de sumô e conseguiram criar uma horta farta, diversificando a alimentação dos presos. “Hoje destacamos a resiliência, a coragem, a dignidade que tiveram dentro de um estabelecimento que deteriora o ser humano, que é uma penitenciaria, eles conseguiram fazer manutenção do gerador, a lavoura, existem muitos exemplos dessa conduta dos japoneses, mesmo aqueles que cometeram crimes, eles lá dentro tiveram também a mesma conduta. Ficavam soltos, livres, porque eles contribuíam para o bom funcionamento de uma instituição do estado”, disse Okuhara.

Ruínas do presídio.

No sábado, o grupo de familiares homenageado saiu de São Paulo às 6 da manhã, tendo chegado em Ubatuba por volta das 11 horas. Após almoço no Iate Clube, os familiares embarcaram em duas escunas que seguiram rumo à Ilha Anchieta. No salão de eventos, foram executados os hinos do Japão e do Brasil. As autoridades presentes se pronunciaram, houve o descerramento da placa comemorativa junto ao gerador e, por fim, a entrega de homenagens da Cidade aos familiares. Os depoimentos dos parentes foram carregados de emoção e saudade. De todos os presos na ilha, o único que está vivo é Tokuichi Hidaka. Aos 92 anos, ele também participou do evento.

Dando continuidade à programação, os participantes seguiram pela antiga usina, passando pela bica Shindo Renmei e chegando até a praia das Palmas, onde foi realizada uma cerimônia religiosa. No retorno ao continente, já com a escuna em movimento, eles aplaudiram a exibição, a partir da ilha, das bandeiras do Brasil e do Japão, lado a lado.

O evento foi uma realização da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), Associação Pró-Resgate Histórico da Ilha Anchieta e Filhos da Ilha, da biomédica Melisa Miyasaka Sakamoto, com apoio da Prefeitura Municipal de Ubatuba. Participaram também das comemorações o prefeito Délcio Sato (PSD), o vice-prefeito de Ubatuba, Jurandir de Oliveira Veloso (PSD), o vereador Osmar de Souza (PSD), o ex-deputado federal, Mario Yasunori Kunigo, representantes das famílias Yamauchi, Tanaka, Une, Hidaka, Matsumura, amigos de Fukuo Ikeda, tenente Samuel Oliveira, Nelson Assai – presidente da Associação Nipo Brasileira de Ubatuba, Gisele Nóbrega, gestora interina do Parque Estadual da Ilha Anchieta, Carlos Zachi, diretor do Litoral Norte da Fundação Florestal, Anacleto Hanashiro, diretor do Bunkyo, Wagner Salaro, comodoro do Ubatuba Iate Clube, além de secretários municipais.

Cerimônia na praia das Palmas.

ENTREVISTAS

Pai e filha, Roberto Yamauchi, 67 anos, e Fernanda Yamauchi, 26 anos, nunca haviam pisado na ilha Anchieta antes. Eles saíram de Tupã e percorreram mais de 700 quilômetros para participar do evento no dia 23. O pai de Roberto, Fusatoshi Yamauchi, não cometeu crime algum, mas pediu para ser preso quando seu pai, Kenjiro Yamauchi, avô de Roberto, também inocente, foi preso por ser redator da associação Shindo Renmei, operando o mimeógrafo usado para reproduzir textos do grupo. Fusatoshi pediu para ser levado para a prisão com o pai para cuidar dele, que já tinha idade um pouco avançada, segundo contou Roberto. O ato solidário do avô com o bisavô de Fernanda a enche de orgulho. “Ele veio para cuidar do pai dele, a gente não vê isso hoje em dia”, disse. Segundo banner afixado no centro de visitantes da ilha, Fusatoshi também teria se negado a pisar sobre a bandeira japonesa, método adotado pela polícia da época para detectar os ditos “estrangeiros nocivos à segurança nacional do Brasil”.

Cerimônia no Centro de Visitantes da ilha Anchieta.

Segundo Roberto, seu pai não gostava de falar sobre isso, mas chegou a relatar caso de tortura na prisão. “Logo que eles chegaram aqui eles sofreram muito. Faziam aquele corredor da morte, faziam os presos ficarem nus e passavam batendo com cassetete”, revelou. São memórias que Fusatoshi Yamauchi parece ter buscado esquecer. “Apesar de tudo que ele passou, ele era muito grato pelo Brasil, adorava esse país”, recorda Roberto. Para Fernanda, é importante resgatar a história não só porque houve sofrimento, mas para que não aconteça novamente. “Eu não sei o quanto eles sofreram, a gente não consegue mensurar. Por mais que depois houve esse bom relacionamento com eles”, disse Fernanda. Foi ela quem convenceu o pai a ir ao evento.E ele não se arrependeu. “Eu estou com a alma limpa, tô achando que meu pai tá do meu lado, que minha vida vai melhorar. Foi ótimo. Espiritualmente, foi um presente do céu”, confessou Roberto.

O único dos 172 presos vivo, Tokuichi Hidaka, destacou a inocência da maior parte dos japoneses detidos na ilha. Em junho de 1946, ele foi um dos autores do assassinato de um dos líderes da comunidade japonesa no Brasil, o coronel Jinsaku Wakiyama. Hidaka entregou-se à polícia com o restante do grupo e cumpriu 15 anos de prisão. Ele afirma que fazia parte de uma minoria. “O resto era inocente mesmo.”

Tokuichi Hidaka

Para Mario Jun Okuhara, autor do documentário “Yami no Ichinichi – O Crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil”, gravado na ilha Anchieta, o próximo passo é conseguir justiça histórica. Ele defende que o Brasil faça uma retratação pública aos japoneses que sofreram perseguição, tortura, prisões ilegais e cerceamento de direitos naquele período. Em 2015, Okuhara protocolou uma petição no Ministério da Justiça, com um pedido reparatório de caráter moral sem fins pecuniários.