COLUNA ILHAS LITERÁRIAS
Eu Privado (Rodrigo Caldeira)

Ilhas Literárias #07

Mapa do tesouro

“Eu Privado” é um sonoro poema sobre o “teatro” da política que tanto impacta nossa realidade. O talento de Rodrigo Caldeira nos palcos já é bem conhecido por todos atentos às produções culturais da nossa região. Neste texto, Caldeira demonstra sua maturidade também no fazer poético. Seu poema é um texto potente para um belo monólogo. Rodrigo brinca com os sons e sentidos das palavras com a mesma desenvoltura que se expressa na dramaturgia. As conexões sonoras, nada óbvias, costuram o ritmo da voz de um poeta indignado, ansioso por ter muito a dizer. Os versos, inteligentes e bem informados, seguem sem quebra de estrofe, como um desabafo. Não um desabafo descuidado, e sim uma explosão de sentidos preparados com muito ritmo. Costas, almas, calma; alimento, alento, templos, tempo; crédito, moeda, queda; horizonte, conte; telefonema, dilemas; mais, trás, eficaz; estádios, Estado; público, publico; privado, quadrado, indago; privada, pé de cabra…

O autor por ele mesmo

Ator profissional, poeta, produtor cultural, arte-educador, compositor e dramaturgo.

 

Eu Privado
Vocês são público
Um dia tudo foi público
E eu publico
Mas privatizaram as costas, o Pau-Brasil
Privatizaram as almas
E eu, privado de calma
Privatizaram a terra, a língua, o cultivo do alimento
E eu, privado de alento
Privatizaram as casas, as estradas, os templos
E eu, privado de tempo
Privatizaram a liberdade, o tronco e a chibata
A produção, o crédito e a moeda
E eu, privado e em queda
Privatizaram a ideologia, os minérios, a água e o petróleo
Tudo que tem de rico no solo
Privatizaram as minhas pegadas no chão
E eu, privado de contramão
Privatizaram as artes na caixinha do entretenimento
Privatizaram até o vento e a visão do horizonte
As notícias são privadas por quem as conte
Privatizaram o olhar, os recados, as cartas
Tudo que falo em um telefonema
Privatizaram minhas falas, fotos, vídeos, contradições e dilemas
Mas agora não privatizam mais
Como num passe de mágica a palavra fica pra trás
Desestatizar parece mais eficaz
Então desestatizam os parques, as praças, os estádios
Cada último pedaço de calçada
Desregulamentam e desestatizam o próprio Estado
E eu, sem mais espaço, calado, parado, privado
Privado de vida e de humanidade, privado
Eu, no meu último refúgio, a minha privada
Nesse trono desse reino de um metro e meio quadrado
Indago:
Cadê o pé de cabra?