14 DE SETEMBRO
Em Ubatuba, índios protestam: ‘Paz de Iperoig foi traição’

Nessa quinta-feira, 14 de setembro, feriado em Ubatuba, índios das três aldeias situadas no município se manifestaram sobre a Paz de Iperoig e outros assuntos. O feriado relembra o armistício firmado entre os colonizadores portugueses e os indígenas da Confederação dos Tamoios em 1563. Menos de um ano após o acordo de paz intermediado pelo padre José de Anchieta, os portugueses voltaram a escravizar os tupinambás.

As Aldeias Boa Vista, Renascer e Rio Bonito, junto com parceiros e apoiadores, organizaram um ato que começou na praça Treze de Maio e terminou em frente às estátuas do índio apertando a mão de um europeu com o padre José de Anchieta ao lado, na avenida Iperoig.

Na caminhada pela rua Thomaz Galhardo, o grupo exibiu faixas com dizeres como “Chega de genocídio”, “Marco temporal NÃO, a nossa história não começou em 1988”, “Demarcação já”, “Jaraguá é Guarani”, “Somos todos pela Amazônia”, “Respeitar os indígenas é respeitar a natureza”, “TI Yakã Porã na luta pela demarcação de terra”, “Somos todos flecheiros” e “Fora Temer”.

Na chegada à fonte onde estão as estátuas, lideranças indígenas fizeram uso da palavra, expressando indignação com os políticos brasileiros. Também houve apresentação musical e venda de artesanato.

ENTREVISTAS

O jornal InforMar Ubatuba conversou com lideranças das três aldeias presentes.

Cristiano Awa Kiririndju, 32 anos, aldeia Renascer Ywyty Guaçu – O coordenador pedagógico da Escola Estadual Indígena Renascer (EEI “Penha Mitãngwe Nimboea”), expressou seu ponto de vista sobre a Paz de Iperoig. “Na verdade foi um contrato que fizeram entre os colonizadores que chegaram com os índios, que seria um contrato de paz. E a gente já vem há mais de 500 anos lutando e a gente procura encontrar essa paz ainda.”

Cristiano mencionou a decisão do Ministério da Justiça que anulou a demarcação da Terra Indígena do Jaraguá. Uma das principais bandeiras do ato em Ubatuba foi o apoio a esses parentes (como se referem aos indígenas, mesmo que de diferentes etnias). “A gente vê questão dos nossos parentes do Jaraguá, em São Paulo, onde o Ministro da Justiça assinou um decreto que toma a terra deles, e a gente está nesse movimento, isso pode atingir a nossa aldeia também. A aldeia Renascer é uma aldeia identificada, não é demarcada ainda, a Boa Vista já é homologada, mas tem intenções futuras de ampliação de terra, mas pela forma que vem ocorrendo isso vai ser difícil acontecer. Então a gente está numa organização, num movimento indígena bem forte, para ver se a gente consegue reverter isso. Que o governo olhe mais para os povos tradicionais. Não só indígenas, como quilombolas, caiçaras. Tem povo que vive da terra, vive da natureza ainda.”

A principal reivindicação de Cristiano é a demarcação da terra. “A aldeia Renascer está bem evoluída, já tem escola estadual,  tem posto de saúde, tem todos os benefícios, com muita luta, com o cacique Awa sempre como linha de frente, então a gente está bem estruturado, com projetos de plantio. Mas nada disso assegura. O que a gente quer do governo federal é demarcação.”

Cleo Parapoty, 34 anos, aldeia Rio Bonito Yakã Porã – Para Cleo Parapoty, a paz de Iperoig também não foi paz de verdade. “Significa uma traição. Foi acordada paz entre todos, mas isso foi bom para os não indígenas. Paz de Iperoig é só um nome. Na verdade, para nós que somos indígenas não houve paz. A gente sempre é desrespeitado nos nossos direitos.”

Na entrevista, ela comentou sobre a nova aldeia formada este ano em Ubatuba, que é uma expansão da Boa Vista. “A nova aldeia é uma delimitação da aldeia Boa Vista. Quando saiu a demarcação da terra da aldeia Boa Vista, a terra da aldeia nova do Yakã Porã já era delimitada, foi publicado no Diário Oficial em 2013, só que a gente não tinha ainda feito essa ocupação dentro da aldeia, e acabamos fazendo essa decisão neste 2017 fazendo reocupação da nova aldeia.”

Cleo explicou o motivo de expandir o espaço dos Guarani. “A aldeia Boa Vista é uma aldeia antiga. Ao passar dos anos, a família vai aumentando, as crianças nascendo, nossos parentes chegando, e acaba que tem espaço pequeno pra gente, onde a gente quer plantas, criar animais, e isso faz com que a gente faça uma nova retomada de reocupação.” Segundo ela, a aldeia possui uma comissão de lideranças. “A gente formou uma comissão de lideranças onde tem o nosso coordenador que comanda junto com o cacique Altino da Boa Vista e o Tupã Marcos, que são lideranças na aldeia.”

Uma das lideranças indígenas da nova aldeia, Cleo também comentou sobre a relação de seu povo com a terra. “O espaço que a gente tem é sagrado. Lá tem o nosso sangue. O sangue dos nossos antepassados, o sangue dos nossos mais velhos, está entre as misturas das terras, então a terra pra gente é sagrada.”

Marcos Tupã, 47 anos, aldeia Boa Vista – O coordenador da Comissão Guarani Yvyrupa – CGY explicou o que foi, na sua opinião, a paz de Iperoig. “O contexto da paz foi mais para favorecer os colonizadores. Para ter os direitos sobre o território e sobre os conflitos da época, dos tupinambás, dos portugueses e franceses. Os povos indígenas da época, na verdade, perderam com essa paz todo o seu território. E esse contexto prevalece até hoje. Pensam que na verdade é a paz. Foi sim uma paz, em benefício dos colonizadores. Mas com isso foi o que houve o grande genocídio dos povos indígenas habitantes aqui do litoral.”

Marcos Tupã explicou o motivo do ato dessa quinta-feira. “Mostrar para a sociedade que apesar desse contexto da paz, de paz não existe nada, então nós vivemos ainda hoje no momento atual essa perseguição, e pra mostrar que nós estamos resistindo.”

Em sua fala, ele comentou as principais reivindicações dos povos indígenas atualmente, citando temas como PEC 215, anulação da demarcação da Terra Indígena do Jaraguá, ameaças a terras indígenas, à preservação da Amazônia e pedidos de demarcação imediatamente. “No contexto Amazônia, nós estamos perdendo territórios, o presidente da República sancionou um decreto de liberação dessa área para exploração de recursos minerais, onde estão também terras indígenas, então é um retrocesso que vem sendo colocado sem discussão com a sociedade muito menos com os povos indígenas, então nós estamos preocupados.”

O coordenador da CGY disse estar preocupado com os as Unidades de Conservação do Estado de São Paulo, que possuem aldeias dentro de seus limites. “Aqui no Estado de São Paulo, todos os parques do governo estadual estão sendo privatizados. E essa privatização vem principalmente prejudicar onde estão as terras indígenas, inclusive no Vale do Ribeira, e todo esse contexto vai ser de confronto com a nossa permanência, nossas aldeias.”

Perguntamos para Marcos Tupã sua opinião sobre o projeto de revitalização da avenida Iperoig, previsto no plano de governo do prefeito Délcio José Sato (PSD). Segundo release da Secretaria de Comunicação, “para valorizar ainda mais a cultura indígena, será criado um espaço contemplativo – uma espécie de memorial Cunhambebe – um espaço temático voltado à História, com o objetivo de resgatar a cultura tradicional, fazendo com que as pessoas conheçam e respeitem.”

Segundo Tupã, ele e os Guarani da aldeia Boa Vista desconhecem a proposta. “Nenhum momento a parte da prefeitura nos consultou. E aí existe esse projeto, que para nós não foi apresentado. Na verdade nós não temos espaço. Não garante o nosso espaço para venda de artesanato, o espaço para apresentação da nossa cultura, nossa tradição, e já diz o projeto, é memorial, né? Então o que está sendo colocado é de que existia no tempo passado e não no presente. Então seria bom a prefeitura abrir esse espaço, essa discussão, esse diálogo, para que nós tivéssemos também espaço no presente, hoje, nós vivemos aqui, somos munícipes de Ubatuba, temos três aldeias agora no município de Ubatuba e a prefeitura deveria ter colocado em discussão, diálogo para que nós também pudéssemos opinar sobre o espaço, sobre essa proposta.”