COLUNA ILHAS LITERÁRIAS
Ela, a poesia (Bado Todão)

Ilhas Literárias #05

Mapa do tesouro

Desde que comecei esta pesquisa sobre quem são os escritores escondidos como ilhas em Ubatuba, o nome dele sopra nos ventos. “Ah, tem o Bado…” Diziam-me os ventos pelos muito mais de quatro cantos de Ubatuba. Ao, enfim, encontrar a literatura de Bado Todão, deparei-me com um tesouro feito de moedas e peças bem lapidadas. Não é por acaso que o nome de Bado Todão conquistou os ventos deste arquipélago literário. Um fazer poético cotidiano e cósmico, coloquial e clássico, próprio dos artistas completos, que se dedicam tanto ao ofício da técnica, quanto à sustentação da sua abertura, no corpo, para a inspiração.

Em “Ela, a poesia”, Bado Todão oferece, generoso ao leitor, a experiência de ser poeta. Desloca-se a imagem comum e errada de muitos: os que acreditam que a poesia é o objeto do sujeito poeta. Nada disso, nesses versos bem talhados, evidencia-se o segredo que todo poeta sabe naturalmente: nós, poetas, tomamos decisões e mudamos toda a nossa vida sempre que é preciso transformar-nos para não perder a poesia. Ela, a poesia, é quem nos arrebata.

 

Ela, a poesia

A poesia pulsa, escancara
Mas se não deseja, não virá!
Não é a lira que escolha o arco
Tampouco o arco a flecha entesa
Nem mesmo o braço veleja o barco
Delira o barco ser livre de mar
A harmonia viceja o afã da beleza
Mas só os desníveis compõem melodias
A poesia pulsa, aflige
Mas se quer oca, silenciará!
Em noites arredias canta o silêncio
Nos dias tensos a palavra se esfria
Ainda que o chão seja santo e divino
O pé se desvia da palavra esperada
A poesia pulsa, se entrega
Só quando esfacela a razão do desejo
Então o sujeito se objeta à oferta
Tornando poema o que ela deseja
Ser bela? Ser plena?
Trágica? Serena?
Ninguém nunca sabe o que ela condena!

Bado Todão
(Inspirações apolínias)
04/06/2017 – Geneve