COLUNA FAUNA TAMOIA - GUILHERME FLUCKIGER
Desconhecimentos populares – Sapos, rãs e pererecas

*Colaborou Simone Leonardi (bióloga herpetóloga)

 

São tantos os preconceitos com esses animais por causa de falsos conhecimentos populares e de lendas que apenas denigrem a imagem deles, tudo gerado por informações erradas e que acabam gerando um asco e medo infundados nas pessoas em relação aos anfíbios. Mas umas das principais ameaças estão ligadas à perda de nossas nascentes e cursos de água e às alterações climáticas com seus prolongados períodos de estiagem.

 

Olhando esta pequena perereca, menor que uma folha, não dá para entender o medo e asco em relação aos sapos, rãs e pererecas.

 

Vida dupla

Os anfíbios, que englobam os sapos, rãs, pererecas, salamandras, tritões e cobras-cegas ou cecílias, possuem esse nome por terem duas fases de vida distintas, no ambiente aquático e terrestre, amphi = dupla, bio = vida. Especialmente em sua fase inicial larval, quando girinos, a maior parte vive submersa em lagos, rios, riachos, poças de água e bromélias. Quando adultos vivem nesses ambientes ou em seus arredores, dependendo muito da umidade, embora haja espécies que vivem em desertos e em regiões extremamente frias.

 

Anfíbios em geral são muito dependentes de ambientes úmidos.

 

E é exatamente por isso que os anfíbios são um dos primeiros grupos a entrar em listas de espécies ameaçadas de extinção, já que são extremamente sensíveis às alterações microclimáticas causadas pelo ser humano. Algumas espécies que vivem nas serras, por exemplo, são dependentes das serrações, das neblinas, e com a alteração das paisagens de matas para pastos e cidades a umidade diminui drasticamente, ameaçando a vida dessas espécies.

Ainda com o novo código (agro)florestal em prática, o aumento do desmatamento, o crescimento urbano desordenado, as políticas burrocráticas públicas para ‘sanar’ as crises hídricas e a falta de consciência ambiental generalizada perdemos a cada dia mais cursos de água e nascentes, causando graves problemas para nós mesmos e a extinção de várias espécies de anfíbios.

 

Sem água não há vida. Reflorestar é a única forma de mantermos os cursos de água e consequentemente os anfíbios, além de nós mesmos.

 

Versatilidade reprodutiva

A ordem anura é a dos anfíbios sem cauda, conhecidos como rãs, sapos e pererecas.

 

Sapos, rãs e pererecas são anfíbios da ordem anura, an = sem e oura = cauda, ou seja, anfíbios sem cauda. E no ciclo reprodutivo mais comum dos anuros, que ocorre no conhecido sapo cururu, por exemplo, a fêmea coloca seus ovos em algum lago, rio ou poça e do ovo eclode o girino que se desenvolve nadando nesse ambiente, alimentando-se de matéria orgânica, como folhas em decomposição. Após alguns dias, desenvolve as duas patas traseiras, depois as dianteiras, ‘perde’ a cauda e começa a explorar o ambiente terrestre. Na fase adulta, ele retornará para esses ambientes com água para dar início no ciclo reprodutivo.

 

Ovos depositados em uma poça de água, ligados por uma espécie de cordão gelatinoso.

 

Girinos de sapo. Nesta fase larval os anuros ainda possuem cauda.

 

Após alguns dias os girinos já apresentam os membros traseiros.

 

Aqui o girino já possui os quatro membros, mas ainda está na fase de absorção da cauda.

 

Mas nem sempre o ciclo dos anuros se inicia diretamente dentro da água e isso é um fato impressionante, pois são cerca de 37 tipos diferentes de modos reprodutivos conhecidos mundialmente, sendo que 27 destes foram registrados para os sapos, rãs e pererecas da mata atlântica. Alguns deles são muito interessantes como incubar os ovos na pele das costas, colocar os ovos em folhas acima de cursos de água ou no interior de bromélias e até colocar os ovos em espumas no meio da serapilheira.

E a versatilidade dos anuros não para por aí, são 30 métodos de defesa descritos, ainda com variações de algumas destas técnicas. Quando são ameaçados, além de fugir, eles podem se fingir de mortos, inflar-se para parecer maior do que realmente são, fazer “xixi”, morder, vocalizar, dar cabeçadas, enterrar-se, permanecer imóveis ou simplesmente fechar os olhos.

 

São diversas as técnicas de defesa dos anuros, como ficar imóvel, retrair-se e fechar os olhos.

 

A coloração de algumas espécies ajuda na camuflagem do animal.

 

E o padrão de cores da pele varia com seu estágio de desenvolvimento, permitindo também uma boa camuflagem durante todo o ciclo em algumas espécies.

 

Aliados importantes

O cardápio também é muito variado, já que seu grupo preferido é um dos mais diversos, os insetos. Também associados aos ambientes aquáticos por seu meio de reprodução, alguns insetos considerados pragas proliferam muito em épocas mais quentes e chuvosas, mas resistem aos tempos de seca, ao contrário da maior parte dos anfíbios que são mais sensíveis à falta de umidade. Por isso, ambientes desequilibrados tendem a eliminar os anuros e permitir a maior proliferação de insetos, gerando maior disseminação de doenças, causando um descontrole das ‘pragas’ agrícolas, o que por sua vez também eleva os custos da produção de alimentos básicos e na área da saúde, também diminuindo nossa qualidade de vida.

 

Os anuros são importantíssimos para a manutenção de um ambiente equilibrado, controlando as chamadas pragas, tais como o mosquito invasor Aedes, transmissor de diversas doenças, como dengue, zika, chikungunya e febre amarela.

 

Em sua fase larval os girinos auxiliam na decomposição de folhas e matéria orgânica evitando a eutrofização de ambientes aquáticos, como pequenos lagos, poças e córregos, ou seja, eles ajudam a melhorar a qualidade das águas. E tanto nessa fase larval quanto na adulta, servem de alimento para inúmeras espécies de animais, como peixes, aves, mamíferos e répteis, contribuindo para um ambiente ecologicamente equilibrado.

 

Girinos cumprem funções ecológicas importantes como auxiliar na decomposição de matéria orgânica e constituir fonte de alimento para inúmeras espécies.

 

Os anuros adultos também entram no cardápio de diversas espécies, como as serpentes e também aves e mamíferos.

 

E na medicina, assim como ocorre com plantas medicinais e alguns grupos animais, os anfíbios já são estudados há um bom tempo na área farmacológica, pois sua pele normalmente possui toxinas que são uma proteção contra fungos, bactérias, predadores e doenças. E essa ação protetora pode ser bem útil na produção de remédios contra diversas doenças humanas.

O sapo é o príncipe, o resto é conto de fadas

Além do direito fundamental da vida que esses simpáticos e versáteis animaizinhos possuem, é crime ambiental maltratar, perseguir ou capturá-los. Visto que são importantes para um ambiente equilibrado e nos ajudam com a eliminação de muitos insetos vetores de doenças, chega a ser até estupidez acabar com a vida de qualquer anfíbio. Eles não precisam se transformar em príncipes, pois do jeitão deles já fazem bem a qualquer pessoa, ao contrário dos príncipes que temos por aí… E além de tudo fazem lindas serenatas em dias e noites chuvosos, criando um ambiente sonoro agradabilíssimo.

 

O direito fundamental da vida por si só e o seu valor intrínseco já deveriam ser o argumento para proteger qualquer espécie animal.

 

Agora as crendices de que sapos dão azar, prenunciam a morte, miram os olhos das pessoas para fazer xixi e causar cegueira são desconhecimentos populares que infelizmente são passados adiante. Já em relação a preverem quando vai chover, isso é fato. Eles conseguem sentir a diferença de pressão e outras alterações em fatores ambientais que antecedem as chuvas, alterando seu comportamento.

 

Observando o comportamento dos anuros podemos ter uma boa previsão do tempo.

 

O mesmo ocorre com outros animais, como uma gama de insetos e aves. Se observarmos a natureza podemos dar melhores previsões do tempo que os centros de pesquisas com seus computadores caríssimos e profissionais bem remunerados.

 

Anfíbios anuros são praticamente tão ameaçados quanto o bioma mata atlântica. E vários são endêmicos da mata atlântica.

No dia da mata atlântica nada melhor que divulgar sobre a importância desses seres tão ameaçados quanto as florestas.

 

GUILHERME FLUCKIGER É OCEANÓGRAFO FORMADO PELO INSTITUTO OCEANOGRÁFICO DA USP, INSTRUTOR DE MERGULHO AUTÔNOMO CMAS E POSSUI HABILITAÇÃO DE MESTRE AMADOR. TRABALHOU COM TRILHAS DE MERGULHO LIVRE E PASSEIOS DE PRAIA POR VÁRIOS ANOS NO PARQUE ESTADUAL DA ILHA ANCHIETA E POR DIVERSAS PRAIAS EM UBATUBA. RESIDE NA CIDADE HÁ 6 ANOS DE FORMA DEFINITIVA, DESDE ENTÃO OBSERVANDO E FOTOGRAFANDO A NATUREZA. Contato: naguiubatuba@gmail.com