COLUNA FAUNA TAMOIA - GUILHERME FLUCKIGER
Desconhecimentos populares – Gambás ou saruês

Vamos desmentir alguns ‘conhecimentos’ populares nessa série, informações falsas que prejudicam nossa fauna e geram um falso asco ou medo nas pessoas por pura ignorância. Começando por uma grande vítima do ser humano por sua proximidade e adaptação às loucuras humanas, os gambás ou saruês.

Gambá de orelha preta

A espécie mais comum da região é o gambá de orelha preta (Didelphis aurita), que tem a parte interna da orelha de cor preta, característica que o diferencia de outra espécie mais difícil de ser avistada na região que é o gambá de orelha branca (Didelphis albiventris). O gambá de orelha preta é uma espécie mais adaptada a viver em ambientes antropizados, ou seja, estão mais acostumados a conviver próximo ao ser humano.

A pelagem deles é rala, com pelos longos, dando a aparência desarrumada. Sua cauda é pelada, porém muito forte e preênsil, ou seja, ele pode se pendurar pela cauda e a utiliza para dar maior suporte nas aventuras pelas copas das árvores. E suas patas são totalmente adaptadas para subir em cipós, galhos, troncos, com os polegares das quatro patas voltados para frente e desprovidos de unhas, ao contrário dos outros dedos que possuem unhas, e suas mãos e pés possuem almofadas que ajudam na fixação na hora de se segurar nas galharias.

Seu focinho é grande e seu olfato é bem aguçado, sendo seu principal sentido na busca por alimentos, pois sua visão não é das melhores e o período em que está mais ativo é o da noite. Ele é onívoro, come de tudo, tendo insetos, ovos, pequenos répteis e anfíbios e frutas em seu cardápio é também um importante dispersor de sementes, tendo rápido metabolismo chegando o alimento a passar apenas 24 horas no organismo.

 

A parte interna da orelha é a principal característica que determina a espécie (Didelphis aurita), embora os filhotes e jovens ainda possuam essas partes claras.

 

Apesar de notívagos, eles saem durante o dia para tomar um banho de sol e de vez em quando começam a forragear enquanto ainda está claro.

 

Não é rato, tá mais pra canguru e coala e não transmite leptospirose

O gambá não é um roedor, ou seja, não é rato, nem ratazana e nem um parente próximo. Ele é mais próximo do coala e do canguru, pois é um marsupial. Isso porque a fêmea tem um marsúpio, que nada mais é do que uma bolsa na altura da barriga na qual ela abriga seus filhotes. A bolsa do canguru é a mais famosa. Essa bolsa permite que os filhotes se desenvolvam, pois eles nascem prematuros, diferente dos outros mamíferos. Logo que eles nascem já escalam a pelagem da mãe para essa bolsa onde ficam mamando até atingir certa idade, quando começam a sair da bolsa de vez em quando, indo para as costas da mãe. O nome científico (Didephis) significa útero duplo.

As pessoas confundem principalmente os filhotes e jovens com ratos e ratazanas e possuem asco do animal, mas ele não transmite a leptospirose como muitos pensam. O gambá é um animal que possui o hábito de se limpar, assim como os gatos e acabam tendo chance de se contaminar quando vão às lixeiras em busca de alimento, assim como outros animais nativos ou domésticos que vivem soltos (são um problemão a ser abordado).

 

Gambá fêmea com um filhote já bem desenvolvido nas costas. É comum encontrarmos fêmeas com mais que 4 filhotes, se tornando lentas ao se locomoverem, ficando mais suscetíveis.

 

Uma fêmea com seu filhote já nas costas procurando alimentos em uma lixeira. São animais espertos e mesmo com a tampa fechada conseguiu se enfiar dentro.

 

Não é fedido, mas não provoque!!

O gambá não é um animal fedido como todos pensam, como já mencionado eles tem o hábito de se limpar e cheira como qualquer outro mamífero que viva nas matas. Mas ele é um animal de hábito solitário, agressivo entre eles, chegando a brigar feio um com o outro. Logo, quando ele se sente ameaçado foge e quando acuado libera um forte odor através de uma glândula paracloacal, assim como alguns gatos que também liberam um mau odor quando estressados.

Um outro método de defesa interessante que os gambás adotam é a tanatose, o animal se finge de morto para evitar ser predado. Aparentemente animais já mortos não são interessantes para alguns predadores.

 

São solitários e agressivos entre si quando não estão em período reprodutivo. Dois gambás que chegaram a rolar do telhado brigando.

 

Mas também há casos em que eles convivam bem, pelo menos na época de acasalamento.

 

O resultado da briga entre gambás foi uma cauda bem ferida.

 

É suscetível e temos que cuidar

Por sua convivência próxima conosco os gambás ficam muito suscetíveis a algumas ações negativas do ser humano. Vamos ver quais são e o que podemos fazer:

– Se alimentam de restos de comida nas lixeiras. Alguns alimentos e produtos misturados podem fazer mal ao animal, o ideal é jogar o lixo apenas em lixeiras fechadas ou pouco antes do lixeiro passar, sem deixar o lixo ‘dormir’ fora, pois é durante a noite que eles estão ativos.

– São uma das principais vítimas de atropelamento, especialmente quando uma fêmea está com os filhotes, fica mais pesada, se locomovendo mais vagarosamente, com mais dificuldade. Leia a matéria sobre atropelamentos para saber o que fazer.

– Ainda são vítimas de caça. Caçar um animal silvestre é crime e deve ser denunciado.

– Se alguém estiver maltratando ou tentando matar um gambá tente impedir, caso não consiga denuncie, também é um crime ambiental maltratar, molestar ou matar animais silvestres.

– Eles gostam de forros e telhados. Caso não queira a companhia dessas agradáveis criaturas chame alguém especializado, como biólogos, veterinários e a polícia ambiental para retirar o animal e o devolver à natureza, embora outros possam voltar caso o acesso não seja bloqueado. Jamais chame exterminadores de praga, esses sim são uma verdadeira praga.

– Se ele estiver em sua residência durante o dia, aguarde até a noite, ele saíra por onde entrou e então bloqueie a passagem. Costumam acordar desnorteados durante o dia.

– Não solte fogos de artifício, o barulho ensurdecedor assusta e estressa os gambás, tornando-os mais suscetíveis a atropelamentos, quedas de alturas grandes e principalmente o desgarramento de filhotes ainda dependentes da mãe.

– Divulgue as informações sobre eles, muitos acham que gambás são ratos fedidos, quando são parte importante de nossa fauna. E o preconceito contra eles é muito grande, graças às desinformações que circulam sobre esses animaizinhos, gerando tanto asco a ponto de muitas pessoas quererem matar o animal ao encontrar.

 

São animais extremamente adaptados ao ambiente dominado pelo homem, chegando a viver em residências.

 

Nesse dia primeiro mais dois gambás pelo menos foram atropelados na estradinha da Fortaleza. Além da imprudência os fogos estressam e desorientam os animais.

*FOTOS: GUILHERME FLUCKIGER