COLUNA ILHAS LITERÁRIAS
Como fazer uma poesia (Danúbia Ivanoff)

Ilhas Literárias #03

Mapa do tesouro:
Em “Como fazer poesia”, Danúbia surpreende o leitor ao imitar com competência o gesto de Manoel de Barros (o mestre escultor de palavras), mas se diferenciando do poeta matogrossense ao imprimir um ritmo vertiginoso de leitura quando sobrepõe imagens potentes da sua vida ubatubana… “É assim que duas ou três bicicletas enferrujadas chegam ao poema e as arapongas de julho.”Vale a pena desvendar as “despretensiosidades” da autora no seu blog “Verve da Poesia” e nos dois livros de coletâneas poéticas em que participou: Poesias Escolhidas – vozes de uma alma (Poesias Escolhidas Editora) e Subúrbios da caneta – poemas do coletivo Tantas Letras! (Editora Dobra).

A autora por ela mesma

Danúbia Ivanoff é poeta e professora de ciências humanas na rede pública, escreve no blog http://vervedapoesia.blogspot.com.br e tem uma página de poesias no facebook https://www.facebook.com/VervedaPoesia

Como fazer uma poesia

Todas as ideias conversadas 
Que não levam a nada 
“Servem para poesia” 
O homem que pinta 
Argolas de malabares multi-colores 
“Serve para poesia” 
Terreno de 50×50 em que moramos 
E não é nosso mas é o paraíso 
“Serve para poesia” 
Duas ou três bicicletas 
Meio enferrujadas 
Com lama no sereno 
“São boas para poesia” 
A goteira da sala pingando no vaso sem flores ainda 
Tem grande importância. 
Cada improviso na vida é um acréscimo à massa encefálica. 
Cada coisa quebrada ou meio quebrada 
Tem seu lugar 
Na poesia e no geral 
A teia da aranha 
Entre uma roupa e outra 
No varal 
E a luz do vaga-lume que ajuda 
A aranha abocanhar o mosquito 
“Servem demais para poesia” 
As despretensiosidades como: 
Fazer corrida de calcanhares 
Cujo objetivo primeiro 
É chegar por último; 
Lamber o cotovelo 
Ver quem pisca primeiro 
“Se prestam para poesia” 
Todo caminho desconhecido 
E também os não-caminhos 
“Servem para poesia” 
Os raios de luz que alcançam 
A estante de livros em que está a memória de Manoel de Barros 
“Têm muita importância para os pulmões da poesia”. 
Tudo aquilo que nossa deseducação rejeita: 
índios, negros e mulheres “livrinhas” 
“Serve para poesia” 
Os malucos de estrada 
“Servem demais” 
O alfinete espetado 
As palavras dadaístas do zine 
Tudo que explique 
a tesoura macia 
e o sofá musgoso 
“Serve demais da conta” 
Gatos, parafusos ou qualquer utensílio 
Dão pra poesia 
Qualquer gato ou gota 
Tudo que descomplique 
a correção das formigas 
e o lampejo do nosso olhar matuto de coruja. 
“É muito importante para poesia” 
O que pode ser esquecido, arremessado ao longe e descartado é bom para poesia. 
Importante mesmo é a palavra mimese 
A palavra mimese eu conheço bem: 
Imitação de gestos de carinho. 
As coisas superficiais 
“têm grande importância” 
– Como um homem tornado coisa 
Aliás, é também objeto de poesia 
Saber o tempo útil que 
Os homens coisificados 
Podem permanecer frente a vitrine 
Sem piscar os olhos 
As coisas que parecem ser o que não são 
“são bens de poesia” 
Descobrir além da superfície das coisas 
é bom pra poesia. 
Pois é assim que duas ou três bicicletas enferrujadas chegam ao poema e as arapongas de julho.