COLUNA OUTROS DESTINOS - SUSSUMO
Caminho de Santiago de Compostela de bicicleta

Uma viagem inesquecível, paisagens espetaculares, as mais belas cidades da Espanha, centenas de povoados medievais.

Um Caminho mágico, repleto de lendas, mitos, milagres e crenças. Palco de batalhas históricas entre cristãos e mouros, terra protegida pelos templários, morada dos Celtas, a primeira civilização a dominar a magia e o ocultismo. Habitada por bruxas e magos que ali desenvolveram sua arte durante a idade média.

Um lugar por onde passaram vilões, mocinhos, santos, pecadores e simples mortais, que deixaram sua energia acumulada ao longo dos séculos tornando este lugar único e especial.

Assim é o Caminho de Santiago, foram mais de 800 km percorridos em 18 dias… de bicicleta, numa jornada repleta de emoções.

É esta viagem que a coluna Outros Destinos compartilha com você a partir de agora.

Mapa do Caminho Francês a Santiago de Compostela com as cidades de paradas deste roteiro

Galicia 814 a.C., a revelação do local onde supostamente estariam as relíquias do apóstolo Santiago dá início a mais tradicional rota de peregrinação da Europa (vide matéria desta coluna sobre o apóstolo Santiago).

 Durante a Idade Média, a indulgência plena concedida a todos aqueles que fizessem o Caminho até a Catedral, com espírito de penitência, arrependimento e conversão faz crescer a peregrinação… Surgem então vários caminhos até Santiago de Compostela.

Cripta com as relíquias do apóstolo na Catedral de Santiago de Compostela

Em Setembro de 2016, resolvemos nos aventurar pelo Caminho Francês, o mais tradicional dos Caminhos de Santiago… de bicicleta, que é uma das três formas reconhecidas pela igreja (a pé ou a cavalo – mínimo de 100 km e de bicicleta –  mínimo de 200 km).

Os4 no Caminho no primeiro dia da peregrinação

Nesse ano, 277.910 peregrinos passaram pela Oficina de Acolhida de Peregrinos de Santiago de Compostela, local onde você retira a compostela, documento fornecido pelas autoridades eclesiásticas mediante apresentação de sua credencial devidamente selada em diversos pontos de passagem, e que certifica a conclusão do Caminho de Santiago de Compostela.

Credencial do peregrino, compostela e certificado de quilometragem percorrida

A descoberta do Caminho

Muitos devem se perguntar o que leva uma pessoa a percorrer o Caminho? Devoção religiosa, turismo, esporte, superação, realização de um sonho?

A verdade é que não há uma regra, cada um tem seus motivos, ou então inexplicavelmente acontece de você se ver pensando nesse lugar místico, por onde passaram milhões de peregrinos ao longo de seus mais de 1.200 anos de existência.

“Contaminado” pelo Caminho, o universo passa a conspirar para te levar até lá.

O Caminho de Santiago acompanhando o Canal de Castilla

A única certeza é que seja qual for sua motivação, durante a jornada você viverá uma experiência mística, espiritual, religiosa e momentos de reflexão te levarão a uma jornada de auto-conhecimento e transformação, assim tem sido ao longo dos séculos nos depoimentos daqueles que viveram essa experiência.

Longos trechos do Caminho são um convite a momentos de reflexão

O Caminho não começa lá, tomada a decisão e iniciados os preparativos, você já está no Caminho.

As dúvidas começam a surgir, será que eu consigo, qual o melhor período para ir, quantos dias serão necessários, o que levar, onde dormir, qual o grau de dificuldade e quanto vai custar?

Seguindo a proposta desta coluna de ajudar os viajantes em seu planejamento, vamos tentar responder as principais dúvidas ao longo das matérias.

San Jean Pied Port (França) e a travessia dos Pirineus

 O caminho francês tem início na pequena e bela cidade francesa de San Jean Pied Port, é lá que está a Oficina da Associação de Peregrinos, e é onde você pode obter sua credencial ou caso já a tenha, o primeiro “sello” (acostume-se com o termo, pois em muitos lugares se você disser “carimbo” poderá não ser entendido) do Caminho de Santiago.

San Jean Pied Port na França, início do Caminho de Santiago

O primeiro desafio do Caminho de Santiago é a travessia dos Pirineus, uma cordilheira que forma uma fronteira natural entre a França e a Espanha, considerada por muitos um dos trechos mais bonitos, mas também um dos mais difíceis do Caminho. 

Diante do relato de muitos peregrinos que comprometeram sua viagem já no primeiro dia ao tentar sua travessia, e considerando a enorme variação de altitude achamos por bem pular esta etapa e iniciar nosso caminho em Pamplona. 

Seguimos até San Jean num bate-volta de carro, atravessando as montanhas sob uma fina garoa e um frio que apesar da beleza do caminho nos deram a certeza de termos feito a escolha certa.

Os Pirineus, um trecho belo porém difícil e traiçoeiro no Caminho de Santiago

Especialmente no inverno, não é recomendável fazer a travessia, pois existem inúmeros relatos de acidentes, alguns até com a morte de peregrinos, mas se mesmo assim você optar por encarar este desafio, cerque-se de todos os cuidados, informe-se e respeite os alertas para minimizar os riscos, afinal aqui é apenas o começo de sua jornada e não pode ser o fim.

 Os primeiros dias no Caminho de Santiago

Os primeiros 200 kms são relativamente tranquilos , fizemos em cinco dias, mas dependendo do tempo disponível pode ser feito em menos tempo, porém considere a possibilidade de alguma parada mais demorada para aproveitar as belezas e surpresas do caminho, como foi por exemplo nossa passagem por Logroño durante a festa da colheita da uva, onde acabamos ficando por pelo menos 2 horas e aproveitamos para almoçar nas barracas da Plaza del Mercado que oferecia “pinchos” acompanhados de vinho a 2 Euros.

Festa da colheita da uva na Plaza del Mercado em Logroño

 Pamplona a Estella, o primeiro dia no Caminho de Santiago

Nossa jornada peregrina começa na cidade de Pamplona, logo pela manhã ao sair, jogamos as chaves numa caixa na portaria do albergue, pois os funcionários só chegariam as 9h, esse é um procedimento bastante comum no Caminho.

A temperatura pela manhã beirava os 15 graus e à tarde chegou aos 27, sem qualquer sinal de chuva. Aliás, os meses de setembro/outubro mostraram ser um excelente período para a peregrinação, não tivemos um dia sequer de chuva e o clima sempre agradável, com frio pela manhã e a temperatura aumentando durante o dia.

A saída de Pamplona passa pelo campus da Universidade de Navarra, é só seguir as setas indicativas do Caminho e o fluxo de peregrinos, logo o temor de se perder desaparece pois além do caminho ser muito bem sinalizado, sempre haverá algum peregrino na estrada, desconfie se ficar muito tempo sem ver uma sinalização ou algum peregrino pelo caminho, é difícil mas você pode estar na rota errada.

Campus da Universidade de Navarra

Pouco mais de 2 km após o campus da universidade e cruzamos a primeira cidade, Cizur Menor, assim será por todo o caminho, muitos povoados próximos, ruas desertas, poucos ou nenhum morador local, e bares, cafés, restaurantes ou albergues quase que unicamente frequentados por peregrinos.

Mais à frente encaramos o primeiro desafio, a subida até o Alto del Perdon a 970 metros, um dos marcos do Caminho, que atrai muitos turistas em busca de uma foto do monumento ao peregrino, uma escultura em chapa de ferro com 14 silhuetas em tamanho natural, representando uma comitiva de peregrinos a pé, a cavalo e de burro.

Monumento ao peregrino no Alto do Perdão

Alto do perdão «onde se cruza o caminho do vento com o das estrelas.» – Nos séculos XV e XVI, existiu no Alto do Perdão um albergue de peregrinos e uma ermida  dedicada a Nossa Senhora do Perdão. A ermida, construída no século XIII, era muito importante para os peregrinos, pois quem ali chegasse receberia a mesma graça de quem finalizasse a peregrinação em Santiago de Compostela, isto é, era concedido o perdão dos pecados e garantida a saúde espiritual em caso de morte durante o trajeto restante.

Como para baixo até Santiago ajuda, a descida do Alto do Perdão pela “carretera” é bem tranquila, e logo estamos em Puente la Reina na Calle del Crucifijo em frente à bela Igreja del Crucifijo construída no final do século XII pela Ordem dos Templários que governaram a cidade entre os séculos XI e XV.

Igreja del Crucifijo

Puente la Reina foi a primeira cidade a surgir na rota de peregrinação, é nesta bela e histórica cidade que os Caminhos Aragônes e Francês se unificam para seguir até Santiago de Compostela.

Houve uma época em que o fluxo de peregrinos era tão grande, que a estadia na cidade era ditada por uma série de normas, ainda hoje podem ser ouvidas as tradicionais quarenta badaladas, que na era medieval avisavam aos viajantes o fechamento das portas da cidade ao entardecer.

Puente la Reina

A ponte que dá nome à cidade foi construída para a travessia dos peregrinos sobre o rio Arga no século XI e hoje é um dos símbolos do caminho de Santiago.

A junção das rotas de peregrinação trouxeram também uma fusão das culinárias regionais, um convite irresistível a uma parada para apreciarmos a gastronomia local acompanhada dos deliciosos vinhos da região.

Menu do peregrino

O menu do peregrino que passa a fazer parte de nosso cotidiano, em geral custa por volta de 10 a 15 euros e dá direito a entrada, prato principal, vinho e as vezes sobremesa ou cafezinho, comida suficiente para repor as energias e combustível para continuar o Caminho. Em Puente la Reina, almoçamos no restaurante La Fonda de Tito, aqui o menu do peregrino (foto acima) custou 10 Euros.

 

O repouso dos peregrinos

Uma das primeiras lições que aprendemos no Caminho foi que o excesso no almoço pode comprometer seu desempenho no período da tarde, o difícil é resistir a tantas delícias que vão surgindo pelo Caminho, mas não se preocupe, sempre haverá um cantinho para um descanso e reposição das energias.

Depois dessa breve parada, seguimos até Estella, um município de aproximadamente 14.000 habitantes que foi fundado por volta do ano de 1.090, com o objetivo de dar abrigo e comida aos peregrinos que por ali passavam.

Estella é uma bela cidade cortada pelo rio Ega que serpenteia pela cidade repleta de monumentos históricos

Nessa primeira parada, ficamos hospedados no albergue dos frades capuchinos (13 euros), com direito a roupa de cama e café da manhã pago à parte.

Assim encerramos nosso primeiro dia no Caminho de Santiago.

Na segunda parte, continuamos nossa jornada por cenários deslumbrantes e repletos de lendas e mistérios que fazem do Caminho de Santiago um lugar mágico e encantador. Até lá!

Veja mais no vídeo do primeiro dia no Caminho de Santiago de Compostela de bike.

MATÉRIAS ANTERIORES DA COLUNA