COLUNA FAUNA TAMOIA - GUILHERME FLUCKIGER
Ascídias – Nossas parentes próximas

Por incrível que pareça essas manchas laranjas são animais complexos, de todos invertebrados são os parentes mais próximos dos vertebrados. E não é coral nem esponja.

 

POR GUILHERME FLUCKIGER

Muitos olham para as manchas coloridas nas pedras e pensam em corais ou no máximo em esponjas, mal sabem que há diversos outros organismos marinhos que dão as cores às rochas. Um grupo deles, os tunicados, é formado pelas pouco conhecidas ascídias e salpas. De todos os invertebrados, os tunicados formam um subfilo que mais se aproxima dos vertebrados, ou seja, dos peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Esses seres de aparência tão simples possuem coração, veias, músculos e outros órgãos mais complexos.

Coloniais ou solitárias

Os tunicados são compostos por ascídias simples ou coloniais e também pelas salpas que formam colônias parecidas com colares transparentes, mas vivem como seres planctônicos, ou seja, ficam flutuando ao sabor das correntes marinhas. A túnica é uma das características gerais desse subfilo, sendo composta por uma substância denominada tunicina, semelhante à celulose, que reveste o corpo desses animais protegendo as estruturas internas.

As ascídias são animais sésseis, ou seja, são animais que se fixam em algum substrato, pode ser nas pedras, no talo de uma alga, em conchas vazias ou ocupadas e em qualquer outra superfície dura que suas larvas encontrem. As larvas das ascídias são planctônicas e se assemelham a pequenos girinos, possuindo brânquias, notocorda e tubo neural, estruturas básicas que os cordados possuem. Normalmente a duração do estágio larval é curta, podendo durar apenas algumas poucas horas, fazendo com que elas tenham pouco tempo para se dispersar, colonizando áreas próximas dos adultos que a geraram. Em compensação, as ascídias são um dos primeiros organismos a se fixar em superfícies livres.

Por mais que não pareça o corpo dos adultos possui diversos órgãos como coração, veias, músculos, ‘cérebro’, estômago, intestino, rim, gônadas masculinas e femininas, entre outros, o que também fazem com que elas sejam consideradas mais próximas dos vertebrados.

 

Nessa ascídia solitária dá para ver claramente o sifão inalante e o exalante.

 

Ascídia colonial composta por indivíduos simples, com sifões inalante e exalantes, dando para visualizar os pares de cada organismo. Todos os indivíduos ficam sob a mesma túnica.

 

Ascídia colonial com indivíduos contendo um sifão inalante cada e apenas um sifão exalante comum a alguns.

 

Estrutura simples

Mas de uma forma geral a organização estrutural de uma ascídia não é tão complexa. São animais filtradores com corpo cilíndrico ou globoso, que possuem um sifão inalante onde se localizam os tentáculos orais compostos por cílios que fazem com que a água entre no organismo, chegando até a cesta branquial, que é uma cesta furada por onde o alimento é filtrado e o excesso de água é eliminado diretamente através do sifão exalante. Nesse sifão exalante também são eliminadas as excreções após o alimento passar pelo estômago e intestino, e também é de onde saem as larvas ou ovos.

Assim são as ascídias simples, que podem ser solitárias ou coloniais, sendo que estas últimas vivem sob uma única túnica comum com várias ascídias simples. Já outras coloniais possuem o sifão inalante mas dividem um sifão exalante maior comum a vários outros indivíduos, que também ficam sob a proteção de uma túnica.

 

Esquema das ascídias.

 

Ascídia solitária muito bem camuflada aparecendo apenas a parte interna dos sifões, quando se fecha fica totalmente ‘invisível’ para predadores.

 

Ascídia transparente colonial (Clavelina oblonga) possui a estrutura corporal de uma ascídia solitária, sendo ligada apenas pela base aos outros membros da colônia.

 

Duas ascídias coloniais estruturadas de forma diferente, A branca (Didemnum sp) possui um sifão exalante comum a vários indivíduos e (Symplegma brakenielmi) com um sifão inalante para um exalante

 

Ascídia colonial (Didemnum psammathodes) com sifões exalantes comuns bem maiores do que os inalantes de cada zoóide.

 

Ascídia colonial cinza exposta ao ar durante maré baixa. Todos os sifões se fecham durante esse período ou quando os animais são ameaçados.

 

Crescendo e multiplicando

São seres hermafroditas que se reproduzem liberando os ovos ou as larvas na água ou então de forma assexuada por brotamento no caso das ascídias coloniais. Ou seja, caso tenha espaço disponível, a colônia vai se expandindo para os lados com o desenvolvimento de novos indivíduos sob a túnica comum, chegando a ocupar grandes extensões. Em compensação algumas colônias possuem indivíduos (chamados de zooides) tão pequenos que a altura da colônia não passa de 1 mm.

 

A ascídia colonial branca do gênero (Didemnum) possui espécies em que a espessura da colônia não chega a 1mm.

 

O formato das colônias é bem variado, formando desenhos como dessa (Distalpia bermudensis).

 

E dependendo de onde elas incrustam o formato pode tomar o porte do objeto recoberto, como nessa outra ascídia colonial.

 

Revertendo e acumulando

O coração se localiza na parte de baixo do corpo, abaixo do sistema digestório e reprodutivo, próximo ao local de fixação. O interessante é que as ascídias podem reverter o fluxo sanguíneo, diferentemente de outros animais, fazendo-o constantemente. Seu sistema de vasos é organizado de forma que passe por alguns órgãos vitais em série ao invés de passar paralelamente como ocorre em outros animais. Isso faz com que as substâncias extraídas do intestino passem por alguns outros órgãos em um determinado sentido, fazendo com que alguns itens importantes não cheguem ao último órgão, com a inversão do fluxo o último órgão passa a ser o primeiro. Talvez esse fato seja uma das explicações para essas constantes reversões.

As estruturas celulares do sangue também são diferentes, fazendo com que elas acumulem metais pesados, principalmente o vanádio em altas concentrações chegando a passar de 100 milhões de vezes a concentração na água do mar, em algumas espécies. O vanádio é acumulado logo abaixo da túnica e também auxilia na formação da mesma, que se rompida libera essas altas concentrações de vanádio e ácido sulfúrico, podendo exercer um papel de proteção, já que o animal que for predar uma ascídia acaba sendo repelido por essas substâncias impalatáveis.
Várias outras substâncias antibióticas produzidas para repelir predadores estão sendo estudadas na área farmacológica, sendo um campo bastante promissor para a cura e prevenção de doenças.

 

Pequenos organismos tão complexos, tão desconhecidos e que podem trazer enormes benefícios na área da saúde. Algumas são ameaçadas de extinção.

 

Colorindo as pedras

É difícil estimar o número de espécies existentes de ascídias, muitas passam por revisões taxonômicas e outras tantas ainda não foram descritas. Mas estima-se cerca de 1300 espécies do subfilo urochordata e mais de 100 espécies de ascídias no Brasil, sendo mais de 50 no estado paulista, inclusive algumas endêmicas e outras ameaçadas de extinção.

Aqui em Ubatuba é muito fácil encontrar esses animais, seja mergulhando ou observando as pedras durante a maré baixa. Costumam preferir locais sombreados onde não são cobertas pelas algas, mas também se fixam nos talos delas, em pilares de cais e outros substratos duros. E temos espécies bem coloridas e outras bem discretas, a variação de cores é alta, basta procurar!

 

Uma verdadeira ametista do mar, como seu nome científico sugere. Essa é a ascídia colonial(Polysyncraton amethysteum).

 

Essa (Botrylus niger) possui cores fortes entre laranja e roxo.

 

Algumas ascídias coloniais formam desenhos bonitos, como essa amarela que se fixou em um esqueleto de bolacha da praia.

 

Algumas são bem discretas, como é o caso da (Diplosoma macdonaldi) que possui túnica transparente e os zoóides marrons.

 

Essa (Symplegma rubra) apresenta uma cor rosa quase vermelha bem viva, mas também pode se apresentar em tons amarelados.