EDUCAÇÃO
Em Ubatuba, alunos aprendem passo a passo do plantio da palmeira juçara

Maria Cintia Teixeira de Almeida, ou apenas dona Maria, 79 anos, é dona de uma propriedade localizada na região norte de Ubatuba, próxima à praia da Almada. No dia 8 de novembro, ela recebeu a visita de cerca de 40 alunos da Escola Municipal José Belarmino Sobrinho, localizada no bairro Puruba. Os estudantes assistiram a uma palestra da Dona Maria, que contou como é o trabalho realizado há mais de dez anos para reflorestar a propriedade com o plantio de juçara (Euterpe edulis). No sítio dela, desde 1996, já foram plantadas mais de quatro mil palmeiras da espécie nativa da Mata Atlântica.

Durante a visita à propriedade, os alunos foram ao local onde as sementes são colocadas para germinar. As sementeiras ficam no chão, em canteiros sombreados que são regados diariamente durante 4 meses. Depois, as mudinhas são cuidadosamente retiradas do canteiro e plantadas em saquinhos com terra e húmus de minhoca. Os alunos participaram desse último processo. Já nos saquinhos, as mudas serão frequentemente regadas durante um ano e meio até serem plantadas no chão.

Wesley Rodrigues Costa, caseiro do sítio da Dona Maria, conhece bem o processo. Segundo ele, pensando nos animais que se alimentam do fruto da juçara, nunca são colhidos todos os cachos da palmeira. “Chega no mês de março, para abril, a juçara começa a soltar os cachinhos. Aí a gente sobe. Você arranca um e deixa o outro pro passarinho”, explicou Costa.

A iniciativa de levar os alunos até o local foi do professor de português Israel Paulo, que coordena o projeto “Caiçara sim”. Desde 2013, este projeto tem como objetivo resgatar a cultura caiçara para incentivar o respeito e a valorização dos bairros e comunidades onde os estudantes estão inseridos. “Embora eu seja professor da língua portuguesa, eu procuro trabalhar textos sobre a palmeira juçara, voltados à cultura caiçara”, explicou Israel. Entre os sub-projetos trabalhados na escola do Puruba está “Palmito juçara, a árvore da minha vida”, onde os alunos têm oportunidades como esta aula que ocorreu no sítio da Dona Maria.

A juçara é uma das palmeiras mais importantes para a fauna dispersora e polinizadora na Mata Atlântica, mas está ameaçada de extinção, sobretudo pela exploração indiscriminada do palmito. “A tônica do projeto é que vocês se conscientizem e levem para a família de vocês. Ao invés de ir no mato e cortar uma vida, que é uma juçara, para vender esse palmito por sete, oito reais, tente despolpar. Deixe um cacho para o passarinho, despolpa, vende essa polpa e utilize a semente para replantar”, orientou o professor.

O consumo da polpa da juçara é uma alternativa sustentável de exploração da palmeira, já que após a retirada da polpa, as sementes continuam viáveis.

DEZ PASSOS PARA O PLANTIO DE JUÇARA

Na ocasião da visita, Dona Maria entregou aos alunos um texto contendo uma breve história de sua propriedade e 10 passos para o plantio da juçara. O passo a passo, que você confere abaixo, é o método utilizado em seu sítio:

  1. Escolhemos um lugar com alguma sombra mas mesmo assim fizemos uma proteção com folhas de pacova, por ser o euterpe edulis planta de clímax da floresta.
  2. Colhemos o cacho e retiramos os coquinhos.
  3. Colocamos numa bacia com água que trocamos durante 3 dias.
  4. Passamos as sementes num pano seco para desprender a casca roxa.
  5. Colocamos todas as sementes no canteiro preparado sem praticamente deixar espaço entre elas.
  6. Cobrimos o canteiro para proteger do sol. Pode ser com tela, folha, etc, se a mata no entorno não for suficientemente alta para proteger a sementeira.
  7. Mantivemos o solo sempre úmido com regas todos os dias, uma vez que a época de plantio é na estação seca.
  8. Depois de escolher um local adequado perto da sementeira, 4 meses depois, passamos as mudinhas para saquinhos de 20 cm de diâmetro preparados com terra local e húmus de minhoca.
  9. Colocamos os saquinhos com as mudas agrupados para facilitar as regas que devem continuar com frequência quando não chover por 1 ano e meio.
  10. Depois desse tempo é só transportar e plantar na mata. Os pássaros e animais agradecem.

Segundo dona Maria, sua família adquiriu a propriedade em 1986 e dois anos depois, adquiriu a propriedade vizinha. “Nessas duas propriedades durante muito tempo foram cultivados milho, feijão, cana de açúcar e mandioca. De Floresta Atlântica, muito pouco havia sobrado”, disse. Ela contou que naquela época já não havia nenhuma palmeira juçara em sua propriedade, nem nos vizinhos mais próximos. 

Dona Maria, que é bióloga de formação e deu aula de biologia por treze anos, disse que teve vontade de reflorestar desde que adquiriu a propriedade, mas demorou dez anos para começar. “Pela complexidade do projeto, fomos aconselhadas a deixar por conta da natureza a recuperação dessa área”, relembrou.

Dez anos depois, ela assistiu pela televisão uma reportagem em que um senhor explicava uma forma simples de plantar a palmeira juçara. Dona Maria se encontrou com ele e aprendeu sua técnica de plantio. E começou a colocá-la em prática no sítio em Ubatuba. “No dia 1º de maio de 1996 colhemos de uma propriedade dois cachos de coquinhos e começamos a aplicar o processo aprendido.”

Além do reflorestamento com palmeira juçara, outra boa prática que dona Maria destaca em sua propriedade é o uso de filtro anaeróbio para tratamento do esgoto sanitário. Segundo ela, o sistema é de baixo custo e é altamente eficaz.

 

*Texto: Renata Takahashi – informarubatuba@gmail.com
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