PERFIL
Alcides Alves Jorge: plantar é resistir!

POR SANTIAGO BERNARDES**
para o InforMar Ubatuba

Do trançado no cipó ou taquara, herança de ser criado pelo avô, velho contador de histórias e de ensinanças, à semente na terra, as mãos trabalham o tempo… Tempo de luta ainda, em que os direitos naturais à terra são arrastados como uma grande maré de intolerância.

Enquanto os dedos vão tramando a timbupeva, sentado na soleira da porta, o pensamento vai silenciosamente semeando ideias no fim da tarde. Lembrando, do tempo dos antigos, a fala de sabedoria do avô, pousando as palavras nos gestos e encaixando-os, ensinando-os. As plantas e seus poderes, o tempo das raízes e dos frutos, o chegar e ir dos peixes. Coisas dos lugares de viver. Quilombo. Resistência de um povo! Das fugas desesperadas nas matas desconhecidas ao reencontrar-se livre num mundo novo! Gerações. Que se juntam e se sucedem. E guardam a cultura, nos olhos, nas mãos, na pele. Na lida diária pela sobrevivência. Mata Atlântica.

Foto: Wendy Gaddini

Quando era criança Alcides viu as serras serem cortadas pelo rio de asfalto da modernidade. A estrada cortou não só as matas, mas também um modo de vida. Partiu ao meio o viver! Mas alguns não embarcaram nessa viagem sem volta de perder-se e perder a cultura, diluída em cédulas, automóveis, comidas plastificadas e hábitos urbanos.

Viajando pelo país ele viu as grandes extensões de terra transformadas em monoculturas estranhas. Trabalhou nelas, cortou cana, colheu algodão, mas logo sentiu que os braços de um homem são livres de qualquer jugo colonial que ainda persiste por estes latifúndios país adentro. Decidiu ficar em sua terra, e nela ser. Plantar, trançar a arte, como os antigos. Como Seu Genésio, ancião da comunidade do Quilombo Cambury, seu tio, do alto dos seus noventa anos, que lhe deixou a roça, quando as pernas já não podiam mais subir o morro e plantar. Mas junto aos antigos conhecimentos ele acrescentou novos. E fez a ponte dos tempos. Do antigo sistema de plantio herdado dos índios para a agrofloresta. O solo perpetua os saberes. A terra não nega ninguém.

Aos cinquenta e dois anos, Alcides trança uma linha do tempo como se fosse um feixe de bambu de artesanato e conta as histórias, a trajetória de um ser e estar em paz com o ambiente ao redor do existir. O avô-pai dos saberes, as lendas, as lutas, os mutirões, as sementes, as conversas com jovens de um novo tempo buscando formas mais coerentes e equilibradas de viver. Na cabeça e nas mãos, ele acredita, essas são as sementes mais ricas que ele vem plantando.

Foto: Santiago Bernardes
Foto: Santiago Bernardes

 

*Texto publicado na edição nº 18 do jornal InforMar Ubatuba (dezembro/2017).

**Santiago Bernardes é biólogo, escritor e surfista. Atua em trabalhos de pesquisa e educação socioambiental. Desenvolve projeto de agrofloresta no Quilombo de Camburi. Autor do livro “Palavrandando”, publicado em 2016, Santiago estreia no InforMar, com sua linguagem literária, contando um pouco da história de um amigo querido, o ‘seu’ Alcides do Camburi.