MÚSICA
Maestro publica texto emocionado no aniversário de 56 anos da Banda Lira Padre Anchieta

A Banda Lira Padre Anchieta completa 56 anos hoje (11 de novembro). Para comemorar, a partir das 21 horas no auditório da Unitau (Av. Castro Alves, 392 – Itaguá) acontece um show especial de aniversário. Também para marcar a data, o atual maestro da tradicional banda da cidade, Amarildo da Hora, escreveu um texto cheio de afeto sobre a banda, os músicos que já passaram por ela e a própria razão de ser do fazer Música, atividade de valor intangível.

O texto do maestro você confere a seguir:

Lira 56 anos

por maestro Amarildo da Hora

O tempo é mesmo um mistério. Parece que foi ontem que um grupo de ubatubanos de todas as partes do mundo deu vida a objetos inanimados produzidos em metal, couro, madeira, sementes, rochas,  que, em forma de  membranas e tubos cônicos e cilíndricos, foram capazes de captar um mundo exterior e exteriorizar um mundo interior.

Parece que foi  ontem, mas a certidão  da Banda lira padre Anchieta registra seu nascimento no dia 11 de novembro de 1960, portanto há  56 anos. O tempo  tem provado que essa foi uma semente plantada com muito amor, por mãos muito especiais. O florescer é consequência dessa ação cheia de vida.

Parece mesmo que foi ontem.

A saudade, palavra que só se conhece em nosso idioma, bate mais forte em momentos como esse.  Saudade daquelas mãos que sonharam, deram vida ao sonho e sobretudo cuidaram dele  como algo novo, que nasce todo dia, que não pode ser substituído por um diferencial de mercado.

A História, ciência  que tem como missão cuidar não do passado e sim daquilo que precisa ser conhecido no presente, é a protetora do sentido dessa saudade. Saudade essa que não significa aqui dor e perda, mas sim alegria, gratidão e, sobretudo, a certeza de um  presente pulsando feliz.

Às vezes, a intensidade da batida, como fenômeno acústico, não é tão bem percebida. Mas ela é ritmo, é movimento continuo, ora ordenado, ora caótico, ou seja,  é vida em toda sua totalidade.

Parece que foi ao som de  valsas, dobrados, sambas, choros, schotish, oratórios, que a comunidade se reuniu pela primeira vez em torno de sua banda, em praça publica no coração da vila de Iperoig. Vestidos a caráter, os 22 músicos com uma ingenuidade pueril escreveram em acordes uma parte significativa da história de nossa cidade carregada de valores imateriais. Não eram músicos de sucesso, não conheciam a palavra “show”, nenhum estudou na França ou mesmo nas escolas de arte brasileiras. Eram pessoas simples, pedreiros, motoristas, zeladores, comerciantes, etc. porém dotados de um saber difícil de explicar até mesmo por aqueles que dominam a arte da retórica e do pensamento acadêmico.

Parece que foi ontem. Então qual razão do esforço retórico ou acadêmico  para falar de uma banda de música? Qual o valor de algo que não pode ser mensurado por um raciocínio contábil e que, portanto não pode ser apropriado, utilitário, nem tão pouco gerar lucro? Porquê o esforço para teorizar sobre  a  razão, importância?

Na sociedade de consumo, na sociedade do espetáculo, do monopólio da aparência onde tudo é descartável,  onde se dorme de olho aberto, onde tudo é ajustado, ou desajustado onde a cultura tem mais o papel de controlar nossa subjetividade e pisiquê, onde tudo parece tão cinza. Mesmo assim ficamos a pensar: que mundo maravilhoso! Esse maravilhar-se, mesmo num mundo cinza, é o que a música autêntica, feita com o coração, provoca. Assim segue a Lira.

E como diria Pixinguinha “deixa pra lá”. O melhor é viver. O melhor é amar, é querer bem, é acreditar, seja curtindo Anacleto, Carlos Cachaça, Gonzagão, Monteverdi, João da Baiana, Ataulfo, James Brown, Louis Armstrong, Stevie Wonder, Carlos Gomes, Chiquinha Gonzaga, Ariana Grande ou Clementina de Jesus.

Parece que foi ontem. Hoje ficou claro que  a experiência não é de quem  pinta a tela, conta os versos, tange as cordas. A experiência é de quem capta energia, energia  em forma de som, luz, cores, etc.

Assim, o expectador muda de lado. Fica tão unido ao artista que aquela separação produzida pela incapacidade de compreender o todo vai se diluindo, fazendo surgir um relacionamento. União essa que é a própria essência da vida.

Depois de tantos aplausos, vaias, criticas, elogios, rejeição, acolhimento, a aceitação de todos os momentos vai se tornando franca, sincera e, enfim uma Banda descobre que sua missão não é tocar, é ouvir e o ouvir é a chave para o dialogo. Portanto não é o discurso, é o bate- papo. Há muito que conversar, muito que entender.

Obrigado banda Lira Padre Anchieta.